domingo, 15 de junho de 2014

Tira esses gatos daqui!!!!!


No ano passado, fiz uma palestra no nosso Encontro Nacional de CED (que vai acontecer de novo em novembro 2014) sobre a devolução. Um dos meus tópicos, na palestra, foi o remanejamento de colônias. Até então, pra mim, era teoria, ou quase.  Até que, em maio de 2014, os vizinhos dos pobres gatos resolveram incorporar o mal, a intolerância, a ignorância, a crueldade e, claro, sobrou pros pobres animais. E, porque tragédia pouca é bobagem, aconteceu não em uma, mas em duas de nossas colônias.

Na primeira, a alimentadora é pessoalmente xingada por um vizinho imbecil que fica ameaçando matar os gatos "dela", se não forem tirados imediatamente dali. Só que os gatos não são dela, são da cidade de Blumenau, ela apenas dispõe de seu tempo e boa vontade, por amor a alimentar os bichinhos. Sob sol, sob chuva.  A vizinhança entende que, por ela se preocupar com o bem estar dos animais, é responsável por tirá-los dali. Claro que ela também se responsabiliza e perde noites de sono, saúde, tempo, lágrimas, tentando encontrar uma solução. Porque ninguém ajuda em nada, é só xingamento, só exigência. Não quero deixar que chamem a Prefeitura, porque não posso nem imaginar que eles sejam levados para o famigerado abrigo municipal - pelo único motivo de que não gostam muito de humanos, além dela. E não devem ser colocados para adoção, pois são ariscos. Então assumimos a bronca e estamos ajudando a remanejar sete gatinhos, de uma colônia de treze. Porque os outros oito não entram na casa do vizinho infeliz. Só mais um detalhe: o vizinho mora ali há anos e, apesar de já ter reclamado dos gatos anteriormente, nunca se comportou deste jeito. Então, por medo do que ele pode fazer, estamos nos virando.

tubos colocados pela alimentadora para os gatinhos brincarem 

A causadora do transtorno foi nossa gatinha Matriarca, que, aparecendo ali há alguns meses, teve seus bebês. Claro que não um ou dois, mas cinco. Juntamente com seus rebentos, ainda tem mais duas mocinhas que adoram fazer cocô no quintal do tal homem. De propósito, será?
nós, tentando conseguir um pouco de compreensão


A alimentadora tratou de pedir ajuda e, por fim, conseguiu a casa de uma senhora, que tem um quintal de mata, bem legal, além de dezesseis gatos próprios. Levamos os primeiros há algumas semanas, levamos mais dois duas semanas atrás e hoje ainda vamos tentar pegar os três últimos que faltam. Seria perfeito, se não fosse o fato de a mulher que agora cuida dos gatos, ficar ligando pra nossa alimentadora, que não tem condição nem de comprar comida pra ela, exigindo que esta sustente seus dezesseis gatos próprios. Claro que para os remanejados ela está mandando ração. Mas para os da mulher???? Por quê? Perguntei e a resposta foi: "eu não vou trabalhar de graça". O que os gatos comiam antes de levarmos os outros sete? Sinceramente, acho que sou ingênua em acreditar que pessoas façam alguma coisa sem esperar nada em troca. Porque não custaria NADA colocar a comida nos potes (comida que a alimentadora providencia, potinhos e cobertores que ela mesma levou). Não é fácil lidar com o ser humano, juro que não é. Nosso maior desafio nesta colônia é pegar os gatos, pois, sendo todos já castrados pela OGR, não chegam nem perto da gatoeira. Os que ela conseguia pegar na mão já levamos. Os remanescente são os mais ariscos.

gaiola onde ficaram por duas semanas, no novo lar

o quintal do novo lar, onde, hoje, já vivem soltos

gaiolas cheias de gatinhos sendo remanejados

a freguesia, com as gatoeiras em pé ao lado

a alimentadora, disfarçando para o gato entrar onde deveria



O outro caso é semelhante no que diz respeito à intolerância humana. Uma pessoa irresponsável se mudou do apartamento, abandonando sua gatinha prenhe. Claro que ninguém se prontificou a castrar a gata. Afinal de contas, não era problema deles, né? Algumas pessoas conseguiram pegar alguns gatinhos, mas a mamãe continuou - e continua - lá, inteira. 

Os gatos passaram a ser alimentados por pessoas que se compadecem de sua situação e, segundo a maioria dos moradores, foi por isso que os gatos ficaram. Sim, foi mesmo, provavelmente. Minha pergunta é apenas uma: por que não castraram a gata quando era UMA? Ah é, lembrei: não era problema deles.

Fomos chamados a participar de duas reuniões de condomínio, sendo que só uma vingou. E por que vingou? Porque as crianças estão adquirindo bicho geográfico, devido ao acúmulo de fezes de gatos no bosque. Ok, concordo. Não é legal ver um bebê de um ano e meio com o pezinho inchado e cheio de desenhos. Mas, me digam: por que deixar crianças andarem descalças num bosque? Não é um gramado. É um bosque, cheio de árvores, terra, raízes, barranco. Não é lugar pra criança brincar, muito menos pra andar descalça. Já dizia minha avó. Sim, eles pagam condomínio, têm direito de usufruir das dependências. Mas, então, por que não castraram a gata quando era UMA? 

Aqui, preciso ser justa: na primeira reunião, ficou combinado que os gatos poderiam ficar, mas que seria definido um local para a alimentação e que os moradores parariam de jogar comida pelas janelas - pois estavam atraindo ratos e gambás. Tudo bem, eu gostei da solução. Daria tempo de começarmos a castração dos animais, que, naquele momento eram aproximadamente sete. Só que, aparentemente, algumas das alimentadoras não seguiram a regras e continuaram a jogar comida pela janela.

Não conseguimos ir em janeiro, conforme combinado, devido ao grande número de colônias, então começamos em março. Mas, aí já veio a ordem de "parar de alimentar os animais para eles irem embora". 

Então fizeram uma segunda reunião, para a qual fomos convidados por uma das alimentadoras. O clima, na segunda reunião, era de muita hostilidade, todo mundo mostrando fotos ou pés ao vivo de seus filhos "doentes". Foi um festival de pérolas. Teve o relato de uma lá contando que adora gato, mas, quando ficou grávida, o médico mandou que se desfizesse do seu. Ah, os médico bem informados. O que seria de nós sem eles, não é mesmo?

Uma outra, super simpática, dizendo PARA MIM (como se EU fosse a causadora da "desgraça geográfica" deles), "se gosta tanto assim dos bichanos, que cada um pegue um gato e leve para casa". Porque ela gosta mesmo é de cachorro. Ou ainda um que tem três gatos de raça, mas deseja o fim dos pobres abandonados do bosque, só porque não custam o que os dele custaram. Ainda uma lá que levantou no meio da multidão dizendo que "se essa aí (EU, de novo) não tem tempo, "vamos pagar para alguém vir resolver nosso problema" (porque expliquei que precisaria de um tempo, devido a compromissos de trabalho - pra quem não sabe, sim, eu trabalho, tenho uma empresa, que precisa de mim). O síndico me defendeu, dizendo que nós fomos os únicos que se propuseram a ir até lá ajudar, pois tinha já falado com todo mundo. Mas, naquele momento, eu era vista, por muitos, como uma inimiga. Como se o problema, que já não era deles quando a gata era UMA, agora fosse meu, quando eles são, pelo menos, doze.

Aí levanta um senhorzinho, dono da razão e pai de uma veterinária - como se o fato de a filha dele ser veterinária lhe desse o direito de saber de tudo - dizendo que "nunca na história se ouviu dizer que um gato tenha morrido de fome" ( me arrepiei de cara, principalmente porque parece o discurso de uma outra figura, barbuda e asquerosa, que provoca repulsas no meu ser mais íntimo). Como assim, gato não morre de fome? Não entendi. Queria saber quantos gatos ele já salvou? Quantas vezes ele chegou a uma colônia onde um gatinho intruso passasse fome por não poder comer sem a permissão dos outros? Porque eu já passei por isso, pelo menos duas vezes. Tanto que a veterinária não me deixou devolver imediatamente, não antes de eles se recuperarem. 

O outro queria que eu utilizasse dardo tranquilizante. Gente, eu até tentei dopar gato ( na colônia da Nove e Quinze ), mas ali, naquele bosque, à noite, é simplesmente impossível. Porque o gato vai tomar o calmante, vai se esconder e nós não vamos achar, porque não cabemos nas mesmas tocas que eles cabem. Minha coluna não é flexível, nem tanto quanto a de um humano saudável, muito menos como a de um gato. 

Eu até acho que o mundo se equilibra. Ao mesmo tempo que tem gente tão insensível, tem outras que se comovem e se habilitam a ajudar. Gente que se dói por aqueles que não podem se defender. Gente que fala por quem não tem voz. Uma das moradoras, não suportando a injustiça para com os gatinhos, acabou se mudando de lá. A outra já me contou que deve seguir o mesmo caminho," porque não dá pra morar com tanta gente ignorante".

Meu argumento natural seria: por isso que moro em casa, não em prédio. Mas, desde que nos mudamos para a casa nova, esta teoria caiu por terra. Nossa vizinhança aqui é hostil a ponto de ameaçar dar veneno de rato para meus cães e botar fogo na minha casa. O ser humano é fofo, não é?

Mas, enfim, o resultado da reunião foi: os gatos não poderiam mais ser alimentados, para que fizessem o favor de ir procurar comida em outro lugar. E nós teríamos sessenta dias para retirar todos. Até ali, eu não poderia garantir que não morreriam de fome, então fui me informar. Porque se a filha do senhorzinho disse que não morre, então não morre, né? Só que eu não acredito em opinião de inimigo (papel que ele representava naquele momento). Entrei em contato com o pessoal de Oregon (FCCO), que faz CED há trinta anos e, segundo eles, os gatos morreriam de fome sim, caso não fossem mais alimentados. Aí perguntei para outra pessoa que faz CED, que disse que não,não morreriam. Liguei pra minha veterinária e ela disse: sim, morreriam. Pronto, dois a um. Informei ao síndico que, caso os gatos não fossem mais alimentados, eu os denunciaria por maus tratos, pois são dependentes dos cuidados humanos e, já que vamos retirá-los dali, não haveria motivo para ser cruel. 

Moral da história: cada um está fazendo sua parte: alimentadoras alimentam, o síndico recolhe as crianças quando vamos (porque o passatempo predileto deles é aterrorizar os pobre gatos), nós nos disponibilizamos a ir duas vezes por semana e o condomínio arca com as despesas. Filhotes até 4 meses serão sociabilizados para posterior doação, adultos estão sendo remanejados para um outro lugar, onde terão tudo de que precisam e as alimentadoras ajudarão a custear o alimento deles. Só que, se não conseguirmos retirar os gatos dali no prazo determinado, eles vão "dar um jeito" no assunto. E que jeito? perguntei eu na reunião: "sei lá, vamos soltar uns cachorros por ali". Porque, né? Muito mais fácil assim, certo?

Uma vez, conversando com dois amigos da causa, disse que não gosto de fazer doação, porque não gosto dos seres humanos. A resposta deles foi que eu não posso dizer isso, uma vez que tenho uma escola, funcionários, alunos e eles são pessoas. É mesmo, não posso dizer que não gosto de humanos, mesmo porque eu sou uma humana, meu marido, que eu amo, é humano, minha mãe, meus irmãos, meus parentes, amigos - tudo gente :)) 

Então eu não vou mais dizer que não gosto de seres humanos. Mas, posso e vou dizer que, em muitos casos, ainda prefiro os animais.

Um abraço,

Maria Cecília Quideroli
Operação Gato de Rua

* Só para constar: quando começamos o remanejamento no condomínio, tínhamos conhecimentos de 3 gatas adultas, 4 gatos de sexo desconhecido, 5 filhotes de uma das gatas. Hoje, após capturarmos 4 (outras) gatas, uma delas tinha tido bebês, então além dos 5 originais, temos mais três minigatinhos de dois meses. E, pelo menos dois gatinhos pretos de aproximadamente 5 meses, que não faziam parte dos primeiros contados. Já retiramos uma gata mansa que foi doada, uma bravinha, que foi devolvida, pois capturamos antes da ordem de retirar, uma outra fêmea, filhotona de uns sete meses, além de um dos cinco filhotes, um filhotão frajola arisco, uma cinza e branca que tinha tido bebês recentemente e um dos minigatos, seu bebês. Ainda nos faltam: a gata mãe dos cinco filhotes, o irmão da adotada, um gatão cinza, dois frajolas, quatro dos filhotes maiores, dois dos minigatos e os dois pretinhos. Esses são os que nós já vimos. Esperamos que pare por aí. Isso tudo, porque enquanto era UMA gata, não era problema deles.



quinta-feira, 1 de maio de 2014

Não se pode ganhar todas

Um dia você se decidiu a fazer CED em vez de resgate, pois sabe que não dá pra salvar todo mundo. Então, percebendo a importância da castração no combate ao abandono animal, resolve que este será seu trabalho. Aí começa. Captura. Esteriliza e Devolve, quase duzentos gatos da sua cidade. Tem firmeza no coração, suficiente pra devolver a um mato, gatinhos que, em outras circunstâncias, poderiam estar sendo amados e aquecido sob um edredom.

E faz isso, muito feliz, sem nenhum peso na consciência.

Às vezes, porém, aparecem gatinhos mansos, gatinhas mamães e sua caixa de minigatos, filhotes maravilhosos, que, não só merecem, como podem e devem receber um lar, pois são sociáveis o suficiente pra se esfregar numa mão que o queira acariciar. Aí você Captura, Esteriliza e Doa, com muito cuidado.

Mas, porque a vida no mato, assim como nas ruas, não é fácil, os perigos são iminentes, muito maiores do que aqueles a que estão sujeitos gatos com tutores e lares. Tem perigo de cobra, de lagarto, de cachorro solto, de envenenamento, de atropelamento, de violência. E você vê que seus gatinhos, mesmo agora com uma grande chance de ter uma vida melhor por estarem castrados, perdem essa chance, simplesmente por não terem um lar pra chamar de seu.

E você se depara com uma das "suas" filhotas, de quatro meses, recém castrada, atropelada, agonizando. Leva pra tentar ajudar, mas ela não sobrevive. Tá bom, não deu, pelo menos morreu sem dor, embrulhada num cobertor térmico. Assim como o filhote que não sobreviveu à anestesia, por ter má formação no coração e nos pulmões.

Filhota - atropelada uma semana após a castração

Alguns dos nossos capturados foram vítimas do abominável ser humano, como os nove envenenados na colônia original da Marli, por motivos até hoje desconhecidos. Ou a Mami, linda, mãe do Maxi, do Micky e da Liza que, porque passou da limite da calçada, foi exterminada com o famigerado chumbinho.

Mini - vítima de envenenamento em massa


Mami - assassinada com chumbinho


Tem também a gatinha linda do Morro, atropelada pelo dito dono da Cuore, que desceu a rua, com seu carro em velocidade acima do ideal, pegando-a em cheio, sem chance de se defender, de ser socorrida. 

Boneca - gatinha atropelada e morta pelo "dono"da Cuore


Ou a Ônix, do centro, também atropelada; o Frajola, lá do começo, minha primeira perda, atropelado. As gatinhas de uma colônia pequena num centro comercial, exterminadas por cretinos intolerantes.

Frajolico - a primeira perda


Mortes inevitáveis de certa forma, porque não vimos, não pudemos fazer muita coisa.

Só que tem aqueles que até teriam uma chance, não fossem as circunstâncias. Seja pelo temperamento, seja pela condição financeira, seja pela falta de lar.

Tivemos uma gatinha de telhado, muito fofa, mas muito arisca. Fizemos a captura e ela tinha prolapso retal. Se fosse a minha gata, a sua gata, mansa e com uma rotina de família, a chance de ficar boa seria muito alta. Só que ela não era mansa, não era minha, não era de ninguém. Morava no telhado com seus bebês mais velhos e os mais novos, naquela vida dura de gato de rua. E, na impossibilidade de ser tratada no pós cirurgia, por ser arisca, por não ter um lar, não ter possibilidade de se fazer curativo, não foi devolvida.

O outro, ainda filhote, filho da minha freguesa mais escorregadia, a Filha Dela, que mora embaixo de uma casa, ficou doente, também levamos ao veterinário, mas não dava mais pra ele. A alimentadora suspeita de veneno. A veterinária suspeita de problemas de saúde, respiratórios, graves e incuráveis para um gato que não pode ser tratado por seu próprio temperamento e condição de vida. E, mais uma vez, para que o sofrimento acabasse, não foi devolvido.

E teve a linda Cuore.

Gatinha que, oficialmente, tinha donos, tinha um teto, mesmo morando na garagem, sem acesso ao interior da casa, nem dos corações. 

Socorrida pela alimentadora (porque os tutores nem se importaram), por sua respiração ofegante e falta de apetite, foi levada ao veterinário, com suspeitas de infecção pulmonar, trauma, ou qualquer outro problema de solução relativamente fácil. Fim de feriado, radiografia e o triste diagnóstico de cardiopatia. Os donos? nem quiseram saber, preferiram a doação.

Uma gatinha linda, doce, amada, querida, carinhosa, mas que precisava fazer muito esforço pra conseguir oxigênio. Colocava seu narizinho pra fora da grade e puxava, puxava, tentando conseguir um pouquinho. Porque seu coração era grande demais. 

Solução? Até que teria: um lar definitivo, no qual os tutores tivessem condição financeira de levá-la ao cardiologista periodicamente, com gastos aproximados de R$ 300,00 por consulta. Pra sempre, mas o sempre seriam mais uns poucos meses. Quem adotaria um animal, sabendo que dali a pouco tempo teria que passar pela perda? 
Precisaria de tutores que não tivessem nem crianças, nem outros animais, muito menos gatos, porque ela não poderia passar por nenhum tipo de estresse, sob risco de morte instantânea. 

E você não tem a condição financeira. Seu projeto não tem a condição financeira. O LT que a acolheria tem outros 18 gatos e nenhuma chance de se garantir cem por cento de tranquilidade, sem estresse. Muito menos ainda, você tem um adotante especial.

E vem a parte mais difícil de se fazer CED. Quando você precisa se conscientizar de que não pode usar seus parcos recursos de castração para salvar um gato em detrimento de outros vinte.Manter um animal sadio em LT é muito caro, imagine um animal doente, com despesas contínuas e altas. Não dá. Não é nosso foco. Por mais que nos doa. 

Claro que, se os donos fossem responsáveis, ela teria sido devolvida. Só que eles não cuidaram direito dela antes, não se importaram que a tiramos de lá, não cuidariam depois e ela morreria asfixiada, lentamente, com muito sofrimento. 

A morte de um gatinho de rua, seja ela como for, é sempre uma dor pessoal, pois cada um é um filho menos favorecido. E, se por um lado, a impotência é revoltante, ela nos move a continuar com o trabalho de castração e devolução da maioria, mas, quando for o caso, insistindo na doação responsável, para pessoas comprometidas, com condição financeira e disposição interna em gastar dinheiro com tratamento veterinário quando necessário. Pessoas que permitam ao gato, ser criado dentro de casa, debaixo das cobertas. 

Não adianta doar pra qualquer um. Muitas vezes, ter uma casa, não significa ter um lar; ter "donos", não significa ter uma família. Cuore que o diga. 

RIP linda gatinha.



Maria Cecília Quideroli
Operação Gato de Rua




segunda-feira, 10 de março de 2014

Sobre abrigos e feiras


O Abrigo XXXXXX é uma entidade de proteção aos animais que resgata cães abandonados e necessitados das ruas de XXXXX, XX. Está localizado num terreno de 15.000 mts², e contém 60 baias de 25 mts² cada, que abrigam até 5 animais/baia.
"Em 7 anos de existência, já foram resgatados mais de 1.500 cães, que foram recuperados, castrados e disponibilizados para adoção. Dessa forma cerca de 600 cães já foram recolocados em novos lares. Os demais, não adotados, viverão conosco até o final de suas vidas. Realizamos eventos de educação humanitária pela guarda responsável de animais, e trabalhamos junto ao Poder Público para a implantação de Políticas Públicas de Proteção aos Animais. Acreditamos que é preciso compensar o confinamento com o máximo de medidas que proporcionem o bem-estar animal como: manejo diário por equipe dedicada, música ambiente para desestressar, aquecedores no inverno (conforto térmico), caminhas individuais, cuidados permanentes com alimentação e saúde e ainda a “HORA DO RECREIO”, momento diário onde os cães podem correr livremente em segurança pelo gramado de 12.000 mts² e um Pet-Playground."

E, com esta informação acima, retirada do site de um abrigo cujo nome não vou citar, quero começar meu post da vez.
Se você lê com atenção, vai ver que foram resgatados 1500 cães e que puxa!! 600 já foram doados. Legal, né? Sim, para os 600. Mas, para os 900 que "viverão conosco (com eles) até o final de suas vidas", nem tanto. Este abrigo acima é um considerado modelo - leia você mesmo, eles têm estrutura de creche, proporcionam o bem-estar do animais, tentando dar a eles uma vida, ainda que confinada, relativamente boa. É uma exceção e não a regra.
Mas são 900 cães confinados contra 600 doados. 
Blumenau vai ganhar um abrigo em breve - previsão para os próximos meses, obra iniciada. A promessa é de local para educação dos estudantes, mostrando o lado obscuro do abandono - ou seja - o próprio animal abandonado, pra ver se desperta a compaixão nos jovens. No melhor estilo maço de cigarros mostrando fotos de câncer e impotência pra inibir o fumo. Funcionou com o cigarro, pode funcionar com os adolescentes também. Vamos torcer para eles não pensarem: "bom, posso abandonar meu cão/gato porque eles vão vir parar aqui, olha que lugar legal".
As promessas são de triagem de animais - não resgatando todos que estão nas ruas, somente os feridos para tratamento e posterior doação; clínica veterinária e profissional à disposição; blá, blá, blá. 

Eu sou contra a construção de abrigos e não escondo minha opinião de ninguém. Podem me dar todos os argumentos possíveis, não me convencem. No caso de Blumenau ainda estou dando o benefício da dúvida, acreditando nas promessas e me comprometendo a dar a mão à palmatória, caso ele realmente funcione e não se transforme num depósito de animais. A cidade tem um histórico de abandono no fim do ano, por exemplo, fora do comum. E eu estou só esperando pra ver o que vai acontecer quando a população souber que tem onde descartar seu amigo, antes de ir se bronzear no litoral.



Há alguns lares temporários aqui, que acabaram se transformando em lares definitivos, nos quais trocentos cães amontoam suas carcaças magricelas e seu pelo sem brilho, brigando muitas vezes por uns baguinhos da escassa ração. Simplesmente porque a pessoa que os recolhe "ama os animais e quer que eles tenham uma vida digna". Só não explica direito o que é digno pra ela.

Até há pouco tempo, em parceria com uma ONG da cidade, meio que acompanhávamos o trabalho de um abrigo não oficial. Uma senhora que a princípio queria privacidade, depois apareceu na mídia, liberou acesso de todo bicho que passa, distribuiu seu número de telefone pra quem viesse choramingar ali. Não posso negar, coloquei três cães no local dela, mas, quando eu a conheci, eram 80 cães e 60 gatos. Meus três cães já foram doados e hoje seis meses depois, ela tem mais ou menos 160 gatos e mais de 200 cães. O espaço abundante que eles tinham antigamente, ficou, obviamente, mais restrito; a atenção que recebiam, também foi reduzida.  Pensar em 160 gatos soltos numa mata me dói o coração, não porque não estejam castrados pois estão, mas pelos pobres pássaros que vivem na região. Já pensou no massacre? Eu amo gato e acho que isso já é claro pra todo mundo. Mas ele é um predador natural, caçador, mata tudo o que for menor que ele. Pobre fauna!

Há uma moça em Minas Gerais que resgata gatos. Montes e mais montes de gatos. Ela, sendo uma pessoa física sozinha, obviamente não dá conta de sustentar 60 gatos do próprio bolso. Porque, quando li o blog dela, acho que, ainda por cima estava procurando emprego e tinha a mãe doente. Aí faz o quê? Pede ajuda, claro. Pessoas ajudam e eu acho isso ótimo, afinal também recebo ajuda de muitos que não me conhecem pessoalmente. Até aí, tudo bem. Só que hoje ela tem 60, amanhã terá 150, porque a velocidade de doação é infinitamente menor do que a quantidade de caixas de ninhadas que chegam. E, sem condições financeiras, não vai conseguir castrar todo  mundo a tempo. Conclusão?




Há exceções, aqui mesmo em Blumenau. Uma pessoa que tem um gatil, tira da rua, acolhe milhões de caixas cheias de gatos que são deixadas na frente da sua porta durante o ano todo, dá amor, cuidado, carinho, gasta o que pode e o que não pode, castra e doa. Da última vez que falei com ela, eram 60 gatos em casa. Mas ela realmente os doa então já teve época que eram "apenas 23". Não é acumuladora, faz tudo com responsabilidade. E uma outra que também abre um espaço em sua casa para gatinhos que precisam de lar temporário e os doa com responsabilidade. Da última vez que perguntei, eram 30. As duas já visitei algumas vezes e os gatos têm vida de rei, não vou nem chamar de abrigo.

Mas, se você tem 350 animais em casa, precisa se desfazer de alguns, certo? E aí vêm as famigeradas Feiras de Adoção - aquelas onde animais são doados a praticamente qualquer um que os queira; sem critério, muitas vezes na base da mentira (ontem mesmo li um post de uma protetora dizendo que o adotante mentiu e o filhote que ela doou, fugiu). Porque a fila tem que andar. O bicho tem que sair porque tem muitos outros precisando entrar. Isso quando os filhotes não são doados sem castração, porque o doador/protetor se comprometealigarepegarnopédoadotantepraele fazeracastraçãoeissoeaquiloporquetemtermodeadoçãoeapessoasecomprometeemaisissoemaisaquilooutro. Termo de doação não obriga ninguém a castrar. Depois que o animal foi, se o adotante não quiser castrar, nem o Papa Francisco pode obrigá-lo; nem o próprio São Francisco de Assis, ninguém. E é aí que mora o perigo, pois, dali a um tempo, vai ter gatinha/cadela prenha nas ruas, abandonadas, porque o adotante não queria ter seis gatos, oras bolas, ele queria só uma gatinha. Mas não castrou e ela entrou no cio. Ficou prenha. Teve filhotes. E, todo o trabalho que o dito protetor teve, foi por água abaixo. É simples assim. Medonho assim. Comum assim. Mas isso já foi assunto aqui várias vezes. 

Nós da proteção animal, trabalhando contra quem doa animais sem castração e sem critérios


Não participo de feiras por vários motivos:

- pessoas que vêm adotar e não têm a mínima condição financeira de ter um animal - já visível no seu jeito de se vestir, se calçar. Teve uma ocasião, na última feira da qual participei com a ONG parceira, na qual uma família de baixa renda, com uma criança e um bebê de colo, vieram adotar um cão. Pra mim, estava claro que eles não tinham condições financeiras de ter um animal, dar-lhe uma vida com alimentação de qualidade, porque mal tinham pra eles. Mas o menino se apaixonou pelo animal e ficou ali, a manhã toda, paquerando, esperando, querendo. Nunca duvidei do amor que o cão receberia, mas, e se ficar doente, vai ser tratado? Eu chorei  muito porque tive pena do menino, mas tive pena do cão também, indefeso, sem poder escolher. Prometeram ir ver se eles ficariam bem. A última notícia, que recebi uns dias depois, foi que ele estavam bem. Prometi a mim mesma que nunca mais participaria disso.

- pessoas que adotam num impulso e logo depois devolvem ao protetor doador; isso quando não largam o bicho na primeira esquina, na primeira dificuldade e o protetor nem fica sabendo - a não ser que faça um controle "pós-doação", cá entre nós, coisa rara. Aliás, conheço algumas protetoras independentes que são exemplo de como fazer doação. Se quiser iniciar carreira, é  só me pedir o contato.

- pessoas que mentem sobre seu espaço, seu tempo, suas condições financeiras

- na pressa, não há muitos critérios de escolha. Na minha opinião, o doador/protetor tem que fazer uma visita antes, preencher um questionário de adoção, fazer entrevista com os adotantes, ter pelo menos alguma certeza de que vai dar certo. Claro que muitas coisas fogem ao controle, não podemos acertar sempre. Mas, doações individuais, não em massa, têm muito mais chances de sucesso do que as feitas de baciada em feiras.

E esta é uma das razões pelas quais eu escolhi fazer C.E.D. e não resgate. 




 O dinheiro que se investe em um abrigo e sua manutenção seria, com certeza, muito mais bem aplicado se investido nesses dois pontos: EDUCAÇÃO, principalmente de crianças e jovens e CASTRAÇÃO para quem já está por aí e seus descendentes. Educar a classe mais pobre, que não tem noção de cuidados básicos com animais deve ser muito mais barato; castrar os animais dessas famílias, muito mais barato que alimentar cães e gatos confinados; lutar por e realizar mutirões de castração na periferia, nem se fala. E aí, sim, teríamos em médio e curto prazo, uma diminuição nos chamados de socorro pra gatinhos abandonados em caixas de papelão com suas mamães, durante a primavera. 

Castrar e cuidar de animais comunitários, educando a população em sua volta, seria, provavelmente muito mais barato também e infinitamente mais humano, menos cruel.

Fui ali dar uma olhada em números de abrigos,  antes de terminar e achei o seguinte:

abrigo com capacidade para 650 animais / tem no total 718 - bem semelhante ao nosso sistema carcerário e suas celas projetadas para 60 pessoas, abrigando 200. Ou não?

Há abrigos que ainda tentam dar uma vida digna aos animais ali confinados - vide aquele nosso exemplo de cima, assim como alguns aqui da região. Há trabalhos voluntários de passeios, campanhas pra arrecadar ração, vacinas, remédios. Mas isso não é o ideal. O ideal é que eles não existam, não por falta de políticas públicas e/ou verba, mas por falta de animais.

Porque abrigo bom é abrigo vazio.

Pergunta pra eles :))




Um abraço,

Maria Cecília Quideroli
Operação Gato de Rua




terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Impotência X primavera

Eu adoro a primavera com seus sabiás cantantes e ipês amarelos floridos. Amo, de paixão.

Mas tem uma coisa que eu detesto nesta época do ano: o excesso de filhotes de gatinhos por aí, abandonados pelos humanos cruéis, ou simplesmente nascidos nos matos, frutos da irresponsabilidade dos mesmos humanos cruéis. Muito difícil.

Não posso dizer quantos chamados e pedidos de socorro recebi nos últimos dias. Para dois, para seis, para quatro filhotes. Fora o amarelo que apareceu no meu quarteirão, que eu não consegui pegar. Estou torcendo para que ele seja o que a vizinha resgatou. Fora os das quatro gatinhas de colônia que acabaram nascendo por conta da minha falta de tempo ou simplesmente pela impossibilidade de captura, no caso da Filha Dela.

Fui entregar a ração do GatoMia pra Marli, a alimentadora de 30 gatos de rua e ela, com um olhar triste, me contou que derrubaram a casa abandonada onde três gatinhas que castramos se acomodavam. Elas, indo parara no forro de uma casa da redondeza, agora ameaçadas de morte, por uma senhora que não gosta de suas presenças. Mesmo não incomodando ninguém - moram num mato imenso, imagino que só se abriguem à noite e em dias de chuva. E dor da Marli, por não ter condição financeira nenhuma de fazer alguma coisa pelas gatinhas.

Também me falou da outra gata, uma das que tiveram bebês, que está só "couro e osso", com seus cinco filhotes, ariscos e magricelas também. E sofreu, por não poder ajudar mais uma. Não mais do que ajuda com a alimentação e água fresquinha, todo dia, sob chuva ou sob sol.

No domingo, um pedido de resgate para dois filhotes mansos, perto de uma casa com cinco cães agressivos. 

Aí vim fazer um treinamento aqui em Campinas, onde estou no momento. Saio pra dar uma caminhada e o que eu vejo? Um gato manso, mas sujo e molambento, perto de uma lixeira. Não fugiu de mim, ficou me olhando. E meu coração cortou e doeu, porque estou a pé, fora de casa, não tinha dinheiro pra comprar uma ração e não pude fazer nada por ele. Continuando a caminhada ainda me deparei com:

uma casa telada e três gatos na garagem - mas as telas tinham buracos enormes
uma casa sem tela com um gato fofo na garagem - e total acesso à rua
uma casa com um bulldog inglês macho bagudo e uma boxer fêmea, assim com sete filhotes misturados, fofos e deliciosos. Nove cães ao todo. Filhotes grandes, todos inteiros, os nove.
um gato de rua, esbelto e ágil, andando pelo telhado.
um gato sialata, bem tratado, tentando jantar uma pomba.

Volto pro hotel e recebo um apelo de resgate para gatinhos perto de uma rua movimentada de Blumenau. Apelo urgente. E eu longe. E os LTs todos lotados de gatinhos socorridos, ninhadas abandonadas inteiras. 

O gato da lixeira me cortou o coração. O olhar dele, resignado. E eu não pude fazer nada.

Quando será que vou começar a ver os resultados das minhas castrações? Quando as pessoas vão castrar seus animais pra que não se reproduzam e elas não precisem abandonar filhotes indesejáveis? Quando as pessoas vão se conscientizar de que têm que prender seus gatos para que eles não se percam por aí e não terminem tendo que procurar comida na lixeira e não sejam os responsáveis pelo nascimento de outros tantos gatinhos de rua que precisam procurar comida na lixeira? 
E como elas dizem que amam seus animais? Porque quem ama, cuida. Tranca em casa. Castra.

Estou precisando ganhar na Mega-Sena com urgência pra comprar um locar gigantesco, escondido e ajudar a esses pequenos que podem ser ajudados. Acabar com o sofrimento dos que, sendo mansos, têm chance de ganhar um lar. Cansei de não poder ajudar a todos. A tal da impotência dói. Ter que seguir em frente e deixar o bicho ali na necessidade, me faz querer fugir pra marte. Porque não dá pra resgatar todos, são muitos e os recursos, escassos.E juízo na cabeça dos homens, nenhum.

Por isso faço C.E.D. - porque não dá pra tirar todo mundo das ruas, então trabalhamos para que não nasçam mais tantos nas ruas.  Mesmo muito feliz com o resultado do GatoMia  (faço um post em breve), vejo que temos, ainda, muito trabalho pela frente. Só espero estar viva pra ver a melhora real.

Fico cansada só de pensar que, enquanto o ser humano continuar agindo como se o problema não fosse dele, vou ficar dando murro em ponta de faca.

Então o jeito é ir dormir e retomar minhas capturas quando voltar pra casa. Não sei nem dizer também quantos são os chamados para fêmeas recém paridas, que desesperam os alimentadores pelo volume de gatos que se multiplica rapidamente.

Quem sabe ainda vejo um setembro/outubro/novembro sem superpopulação de gatinhos?! 

Me deixa sonhar, porque é época de acreditar em papai noel.

HO HO HO.

Maria Cecília


terça-feira, 1 de outubro de 2013

I GatoMia de Blumenau - A hora e a vez dos gatinhos

Gatos são seres maravilhosos, mas disso você já sabe. Porém, ao mesmo tempo que têm amantes eternos, têm seus inimigos figadais, gente que não sabe o que está perdendo.

Então, pra tentar acabar com o preconceito, apresentar esses fofíssimos a quem não os conhece direito e bater papo bom com quem já ama, quebrar tabus e encher o coração de ternura, resolvemos fazer um evento educativo e interativo cujo tema são nossos bigodudos de passos mansos e olhar penetrante.

Vamos nos reunir no dia 30 de novembro de 2013 no auditório da Secretaria Municipal de Saúde, na rua Alwin Schrader, 92 - Centro, em Blumenau. Chegaremos às 8h30 para fazer cadastramento e dar um abraço em quer vier conversar conosco, depois teremos cinco palestras com temas variados ( o gato, comportamento do gato, adoção/doação e tutela responsável, castração e CED). À tarde haverá o lançamento do meu segundo livro, continuação da história do Romeu - Vai uma Cachacinha? - é o nome da vez. A previsão de término é 15h.

Os livros, tanto o Resgatos - Histórias de um gato maloqueiro, quanto o Resgatos - Vai uma Cachacinha? estarão à venda por R$ 30,00. A renda será revertida às nossas castrações de gatos de rua e para pagar eventuais custos com o evento.

Vamos oferecer lanchinho, porque saco vazio não para em pé.

Esperamos você, seus amigos, quem ama muito e quem não gosta tanto assim, pra abrir o coração e se deixar apaixonar por criaturas ágeis e impressionantes. Quem tem gato, não tem estresse, pois são umas figuras. Quem tem gato tem coração derretido e cheio de ternura, porque é isso que eles nos provocam. Mas disso você já sabe.

Faça sua inscrição pelo e-mail: gatoderuablumenau@gmail.com, enviando seu  nome completo. No dia, traga a taxa de inscrição que é 1 Kg de ração para gatos. As vagas são limitadas.

Te esperamos lá!

Um abraço,

Maria Cecília /Taciane / Vanessa / Juliana
Com apoio da ADAB e da Diretoria do Bem Estar Animal



quarta-feira, 17 de julho de 2013

A difícil vida nas ruas

Ontem fomos buscar as gatinhas da Operação Gato de Rua que estavam prontas para ir para casa após a castração. Quando chegamos, um veterinário estava fazendo um procedimento de desobstrução de bexiga num gatinho. Não gosto muito da mesa de cirurgia, nem de ver animal sedado, mas, como era um gatinho, cheguei mais perto. Meu marido Fábio perguntou o que causava aquilo e a resposta foi: ¨o cara dá ração de baixa qualidade e o bicho que paga o pato. Hoje ele comprou renal, mas agora o estrago já está feito¨. 
Essa informação me provocou um choque de realidade. Já sabia disso, sei dos danos que a ração seca provoca na saúde dos animais, mas, quando ele falou, pensei, imediatamente nos gatinhos que castrei ou estou castrando, moradores de rua, alimentados por pessoas de baixa renda e altíssimo grau de amor ao próximo. E meu coração doeu de medo por eles.

Das últimas vezes que retornei às primeiras colônias revi a população felina que estava lá. Todos gordos, sem exceção. Alguns MUITO gordos. E não adianta falar para as alimentadoras que isso não é saudável, que é comida demais, porque elas têm pena, acha que vão morrer de fome de um dia para o outro.

Mas eu entendo o sentimento delas. A vida dos gatinhos de rua já é bem difícil ganhando comidinha razoável todos os dias em horário certo. Porque não é só a alimentação, é abrigo, frio, chuva, água. E aí fiquei pensando na ração que eles comem, que não é tipo PREMIUM e, sim, muitas vezes, bem baratinha, porque as alimentadoras não podem comprar uma melhorzinha. E fiquei imaginando que, se algum gatinho tiver obstrução urinária ou qualquer outro problema típico de gatinhos, ninguém vai ver, nem ficar sabendo, nem vai poder socorrer, o animal vai sofrer, sentir dor, ficar desamparado e sabe Deus lá quanto tempo ficar assim até morrer. E,com esses pensamentos, não consegui dormir.

Dias atrás tivemos nosso primeiro óbito na clínica. Um gatinho jovem, com menos de um ano, que morreu ao receber a medicação de relaxamento ANTES da anestesia. Morreu assim, sem mais nem menos. Claro que todo mundo ficou arrasado e a veterinária responsável, para saber o que tinha acontecido, fez necrópsia. Pra resumir, ele tinha o coração e os pulmões deformados, em tamanho menor do que o necessário. Estava sobrevivendo do jeitinho dele, escondidinho no mato e comendo, mas quando foi relaxado, o pulmão - que o mantinha vivo trabalhando em hora extra - sobrecarregou o coração, minúsculo, que não conseguiu oxigenar o bebê. A morte dele poderia ter sido evitada se nós soubéssemos disso antes. Mas não soubemos, porque o cara era arisco e bem brabo, apesar da carinha fofa de Charlie Chaplin. O único consolo é que ele morreu dormindo, sem sofrimento.

E assim são todos eles, moradores dos matos, ruas, becos e construções de centros urbanos. 

Quando penso nisso e em todas as pessoas que colaboram para que esses animais estejam nas ruas, tão vulneráveis, tenho um sentimento de impotência muito grande. Porque mesmo já tenho castrado 106 gatinhos, a maioria de rua e sem dono, a luta com quem joga contra é muito difícil: quem deixa gato não castrado sair e procriar por aí; quem deixa gato sair simplesmente, mesmo castrado - correndo o risco de se perder e ficar perambulando pelas ruas para sempre; quem deixa a gatinha cruzar porque tem preguiça de castrar ou porque acha bonitinhos os filhotes e aí, para horror de quem lida com animais de rua, doa os filhotes TODOS sem castrar antes - e aqui não quero nem pensar nas ONGs que doam bebês não castrados, porque sim, elas existem, para desespero da minha gastrite. Isso é o que faz o abandono persistir ainda por tanto tempo. E, se você faz uma dessas coisas, não reclame. É sua culpa também.

Filhote de gato é muito fofo. Mas é fofo quando pode ter um lar quentinho, sequinho, comidinha de boa qualidade, veterinário quando precisa, amor, carinho, companhia. Senão é um pobre ser indefeso sendo massacrado pela natureza, pela chuva, pelo ser humano cruel que o abandona, chuta, envenena e só quer se livrar dele. Eu sei que tem gente boa que cuida, resgata e espero que, no frigir dos ovos, tudo fique pelo menos equilibrado. Mas estou lutando para que o lado do bem, do gatinho com lar e cuidados, vença. Que não haja mais gatinhos sem teto por aí, para não precisarem morrer sofrendo com a bexiga obstruída, com dor e sem socorro, ou numa anestesia que possa ser evitada, ou chutados, atropelados, massacrados a pauladas, envenenados, enfim, abandonados a mercê do destino. Porque eles não pediram pra nascer ali. Não pediram pra nascer at all. Cada gatinho castrado ou não, das minhas colônias, significa pra mim, exatamente o mesmo que o Romeu, Nicolau e Cachaça e, não é porque moram na rua que eu me importo menos com eles. 

Ainda não é Natal, mas eu quero que neste ano, o Papai Noel nos traga de presente discernimento para pessoas e ONGs, para que realmente se comportem como pessoas que amam seus animais e procurem o seu bem-estar. Para que somente pessoas conscientes adotem animais.

Porque não adianta pedir que Papai do Céu ajude os anjinhos. Ele já tem muito o que fazer cuidando da humanidade cada vez mais cruel, que não liga nem para seu irmão semelhante, que gasta seu tempo inventando uma maneira de ser feliz às custas do outro. O universo em que vivemos está, também, sob nossa responsabilidade e é nosso dever zelar pela vida e bem-estar do outro, mesmo que ele tenha bigodes e mie. Ou principalmente deles, que não indefesos.

Faço C.E.D. porque acredito que a castração é a única maneira realmente eficaz de impedir que o abandono se perpetue. Mas acredito também na educação do ser humano, principalmente os jovens e crianças. 

Quero dedicar este post aos meus falecidinhos, que viveram muito menos do que os 20 anos programados por Deus, devido à irresponsabilidade de todo mundo que não cuidou para que fosse diferente: o frajola irmão da Léa, que morreu atropelado aos seis meses de idade; a Mãe de Todos, que morreu envenenada antes de ser castrada; o Romeuzinho, Kaká, Mini e os outros seis da mesma colônia, que eu nem cheguei a castrar, que também foram envenenados numa ação de revolta e briga entre humanos imbecis; a Mami, tão linda, também envenenada por um empresário babaca da cidade; a Filhota, que morreu atropelada aos quatro meses de idade, uma semana depois da castração; ao terceiro filhote da Filha Dela, doentinho, que morreu embaixo da casa e ao Charles Chaplin, o cardiopata lindo que não teve chance de socorro. Sinto muito por todos vocês, para quem já é tarde demais, mesmo com muita gente lutando. 

Grande abraço a todos.

Maria Cecília



terça-feira, 21 de maio de 2013

É da conta de quem?


foto: www.desenhadinho.com

Um amigo compartilhou a foto de um recibo meu no facebook e uma pessoa comentou : "raridade isso". Fiquei um pouco chocada, preciso dizer. Não deveria ser a exceção prestar contas, e sim a regra.
Quando eu doo dinheiro para alguma causa, gosto de saber se ele, tão suado e escasso foi usado da maneira prometida. Pra mim, é óbvio que tenha que ter prestação de conta se o dinheiro não é (só) meu. A partir do momento que alguém confiou em mim, preciso mostrar que sou digna de confiança. E não aceito a resposta de que "só porque fulano doou acha que tem o direito de me pedir prestação de contas". Bom, na minha opinião, fulano tem todo o direito.

Tem gente e ONG por aí que usa foto de bicho estropiado ou história de animais carentes, maltratados pra fazer dinheiro. E, muitas vezes, nunca mais se tem notícias do animal, ainda outras vezes o animal sara, fica bom, ou morre e ninguém fica nem sabendo, os posts continuam a circular por aí. Abusar da boa vontade alheia é uma coisa muito feia. É só entrar no Facebook pra ver quantos protetores independentes há, com zilhões de animais sob sua tutela e responsabilidade, chorando e implorando por ajuda - e ganhando. Já reparou que tem gente que lá no perfil, na profissão, põe "protetor de animais"? E ser protetor é profissão desde quando? Não era pra ser desinteressadamente? Não entendi...

Claro que tem gente do bem que se dedica à causa, que custeia do próprio bolso, que já é aposentado, por exemplo e só faz isso da vida, porque gosta, ama, quer e pode pagar quando ninguém doa. Claro que tem protetor sério que vive para isso e de doação e REALMENTE destina a verba para os animais. Seja um. Sejam 250.  Porém, se ganhou de outros para o animal, tem que usar para o animal.  

250 animais num mesmo local é complicado. O risco de alguns saírem prejudicados é altíssimo, principalmente quando o protetor (acumulador? colecionador?) é um só e continua resgatando. Eu sou contra abrigo, mas esse não é meu tema aqui.  Aqui em Blumenau tem, inclusive, uma moça que vive para 240 cães, paga tudo, não pede nada e eles vivem em ótimo estado. Mas isso é um em um milhão. Tem que ter condições financeiras e disposição. Só que se o dinheiro é dela e ninguém doa, não tem que dar satisfação.

Quem tem protetores entre seus amigos de Facebook e curte páginas voltadas aos animais acaba sendo informado de algumas ações, mesmo que não queira, pois as atualizações são automáticas. E eu, pessoalmente, sempre vejo pedidos de ajuda. Raramente vejo os recibos. 


foto: www.tumblr.com


Talvez o brasileiro não se importe com o que fazem com o dinheiro dele. Será?? Eu devo estar louca em pensar nisso, num país onde bebês de um ano morrem por falta de diagnóstico, pessoas morrem em macas de hospital por falta de leitos e médicos, alunos assistem aulas em salas, sob seus guarda-chuvas, por falta de estrutura. O importante, afinal é ser hexacampeão mundial de futebol e saber onde está o Russo. Só que não.

Eu falo da causa animal porque sou da causa animal, mas tem em todos os setores a tal da roubalheira: na causa infantil, na causa dos idosos, na causa ambiental, indígena, de orientação sexual, de raça e descendência - tem gente desonesta de todo tamanho, cor e sexo. E não precisa nem ir até Brasília. Você pede nota fiscal de tudo que compra? Porque se você não pede satisfação, ninguém se vê na obrigação de dá-la.  E aí, fica fácil para os desonestos, passar a perna nos crédulos.

O que quero dizer, pra encerrar, é que faço questão de postar meus recibos, mesmo quando o dinheiro é meu - porque é meu, mas foi de alguém que comprou meu livro ou uma camiseta e, quando ofereço, digo que vou utilizar para castrar gatos de rua. Quando recebo doação, além de agradecer por mensagem inbox, aviso a pessoa qual gato ela pagou e marco na foto do gato e do recibo. Cada castração custa R$ 100,00 só pra avisar, caso alguém ainda não saiba. E, ultimamente, muita gente tem nos chamado pra castrar gatos em suas ruas. Tudo devidamente documentado.

No próximo dia 25.5.2013 das 8h às 13h30 vamos participar de um pedágio nos semáforos (ou sinaleiras, como dizem por aqui) de Blumenau, juntamente com a ADAB (Associação dos Defensores de Animais de Blumenau), a Hachi Ong, a Focinho Feliz e a Diretoria do Bem Estar Animal. Do total arrecadado vamos tirar o suficiente para pagar as eventuais despesas com divulgação e lanche e o restante será dividido igualmente entre as ONGs participantes. Faço questão de postar depois quanto recebemos e o que pretendo fazer com o dinheiro. Aproveito pra convidar todo mundo a dar uma voltinha de carro pelos cruzamentos de Blumenau e fazer sua colaboração, cada uma de nós ONGs e Associações precisa de verba para seus objetivos individuais. E todo mundo vai contar depois quanto veio e para onde vai.

foto: www.eutambemreclamo.blogspot.com


Se alguém quiser ser voluntário, pode também. Entre em contato com a ADAB: adabbnu@gmail.com. Agradecemos de coração.

Obrigada a todos pela confiança, espero sempre poder corresponder àquilo a que me comprometi. Pois, se um dia não puder mais fazer conforme meus valores morais, vou parar. 

foto: www.kdimages.com


Grande abraço, Deus os abençoe.

Maria Cecília Quideroli

domingo, 5 de maio de 2013

O primeiro ano de vida

copiei esta imagem da Internet: babyvelvet.blogspot.com 

Em maio de 2013 a Operação Gato de Rua está fazendo aniversário. Comemoramos nosso primeiro ano de vida.

Fico muito feliz em ter continuado com um projeto que começou meio que sem querer, no impulso. No começo não tinha muita noção, cometi erros crassos. Mas aí a Greise me enviou um link de como usar a gatoeira corretamente e minha vida mudou. Conheci - pelo menos ciberneticamente - a Otávia de São Luiz, do Projeto Felinos Urbanos e vi que sim, é possível. Obrigada às duas por todas as indicações e ajuda.

Nesse ano de dedicação aos gatos de rua de Blumenau conseguimos:

- castrar 78 gatos (por enquanto) - o que significa: 936 gatos que não nascerão, não serão abandonados e não sofrerão nas ruas. (considerando que um casal de gatos gera, por ano, no mínimo 12 gatinhos - e que cada um dos nossos gatinhos é metade de um casal) - em dez anos serão já hoje - 6.271.177.240  gatos sofredores a menos nas ruas - se meus dotes matemáticos não estiverem me enganando. 

 Inge - gatinha nr. 36


Gatinhas Beijinho e Brigadeiro - nrs. 77 e 78

- conhecer muita gente legal pelo Brasil que se identifica com a causa e nos ajuda sendo com doação de ração, de dinheiro, comprando livro ou camiseta, dando apoio moral, opinião, compartilhando meus posts, lendo e comentando meu blog, pagando castração por conta própria na sua rua ou nas redondezas ou de qualquer outra maneira. Não vou colocar nomes porque sei que vou esquecer pessoas e não quero ser injusta. Quem me ajudou sabe e é pra todo mundo meu abraço de muito obrigada.


Imagem: davidaaoamor.blogspot.com

- convencer 4 pessoas (por enquanto) da importância de se manter o próprio gato castrado dento de casa, com tela de proteção. Um dos meus temas preferidos, gente. Sério :)


Athur, o gato da Otávia dos Felinos Urbanos, em segurança dentro de casa. Imagem: amoremiados.blogspot.com


- conhecer o ser humano malvado que abandona gatinhos (encontramos 6 gatos abandonado mansos que foram doados), envenena gatinhos ( foram envenenados o Kaká, o Romeuzinho e a Mini Mamãe - já castrados e ainda sem castrar a Mãezinha e dois irmãos do Kaká, além de um filhote da Mãe Preta - todos numa colônia, além da gatinha Mãe de Todos, não castrada e uma de suas ninhadas, assim como uma gatinha preta sem castrar da mesma colônia), ameaça envenenar gatinhos ( vide colônia do León, Pascoal, Maizena, Mutti, Clarinha, Arthur, Ingo e Meia-Noite ), dá pauladas em gatinhos ( Vitória e Tereza ).


Fofolete - gata nr. 61 - abandonada pelos donos, foi doada para um família carinhosa


Kaká - gatinho nr. 39 - covardemente assassinado com veneno, juntamente com seus irmãos e outros gatinhos da colônia



Vitória - gatinha nr. 40 - agredida por um vizinho covarde - teve todos os seus filhotes mortos a paulada.


Pascoal e León - gatinhos nr. 71 e 66 - ameaçados de envenenamento - tentei sociabilização, sem sucesso

- aprender ( será ? ) que gato arisco não pode ser doado, nem quando é filhote ( vide Léa, León, Maizena, Pascoal )

- amar a todos os gatos, incondicionalmente e chorar quando eles morrem por motivos além de nossas forças, como o Frajola irmão da Léa e a Filhota, que foram atropelados, além de um dos filhotes da Filha Dela - de causas naturais.


Filhota - gatinha nr. 59 - atropelada uma semana após a castração 


- chegar à conclusão que existem gatos com alma de bagre que nos dão bailes e são muito mais espertos do que pensamos, principalmente quando são fêmeas de pelagem tipo Frajola: Mega-Sena, Nove e Quinze, Filha Dela, Lisinha - que não perdem por esperar e Bagre, Mami, Mãezinha Tricolor, Subterrâneo - já capturados e castrados, graças a Deus.

Mami - da turma da Gundi - uma das maiores bagres, hoje, devidamente castrada

- saber a importância de se ter uma drop trap trambolhuda e uma lata de sardinhas


drop trap - o trambolho que me faz mais feliz que um par de sapatos novos ou joias caras

Também aprendemos que a honestidade, a transparência, geram confiança e colaboração.

Aprendi que preciso, URGENTEMENTE, aprender a usar o photoshop pra fazer posts bonitinhos para o blog e a página.

Foi um ano de muitos domingos não aproveitados com lazer, algumas vezes vontade de desistir. Muito cansaço físico, mental e emocional. Muita realização, muita alegria, muitas lágrimas.

Para os próximos anos temos programados:

- nosso primeiro pedágio nos semáforos de Blumenau
- nosso I Encontro Nacional de C.E.D - com muitos grupos lindos de C.E.D. do Brasil. 
- um evento voltado exclusivamente para gatos e gateiros



Muito obrigada a todo mundo que nos apoia, que acredita em nós, que nos divulga e ajuda financeiramente. Obrigada aos meus leitores que, consciente ou inconscientemente nos ajudaram a realizar nosso trabalho.

Espero não desistir, poder continuar levando esperança de uma nova vida a milhões de gatinhos por aí. 

Continuem colaborando conosco. Precisamos muito de seu apoio.

Deus abençoe a todos vocês.

Grande abraço,

Maria Cecília e Fábio Quideroli 





quinta-feira, 4 de abril de 2013

D de Devolução ou D de Doação? - Eis a difícil questão

C.E.D, como vocês já sabem, significa: Captura, Esterilização e Devolução - de gatos (no meu caso) de rua. Ou seja, nós vamos lá, armamos a gatoeira, CAPTURAMOS, levamos ao veterinário, eles são ESTERILIZADOS, buscamos, alimentamos em casa e, no dia seguinte DEVOLVEMOS ao local de onde foram retirados. Rápido ( às vezes nem tanto ), fácil e muito eficaz.

Mas por que cargas d'água devolver e não doar??

Por exemplo, porque:

1) - não tem lar para todos os gatos que estão perambulando por aí. Ou que nascem por aí, sem teto, sem dono.
Infelizmente, preciso voltar sempre na questão do gato, muitas vezes não castrado, que tem acesso às ruas. Esse cara (citado aqui no singular, mas em plural muito numeroso na vida real) é o responsável pelo nascimento de muitos outros animais. Porque há muitas fêmeas nas ruas, que já são frutos desses nascimentos sem lar, ou que também têm donos e acesso às ruas, inclusive na época do cio. E, claro, eles vão atender ao chamado da natureza, vão acasalar, vão emprenhar e, consequentemente, ter as crias. Que vão nascer - nas ruas ou nas casas dos donos para serem doadas depois, sem castrar, ter acesso às ruas, acasalar, emprenhar, dar crias, que vão nascer nas ruas ou nas casas, ser doadas sem castrar, sair às ruas...chega, né? Já nasceu gato demais nessas últimas duas linhas. Transforme minhas palavras em animais vivos e temos aí nossa triste realidade.
Não, essa foto não é fofa. Pense nesse monte de vidinhas passando frio e fome, dor e abandono nas ruas

É muito fácil doar um bichinho quando você o faz sem muita consciência e entrega para o primeiro que aparece interessado. Porém, quem lida com resgate e doação RESPONSÁVEL de animais de rua sabe a dificuldade que é encontrar um lar adequado para um gatinho.

Lar adequado, no meu entender, é um lugar onde o animal não tenha acesso livre às ruas. Um apartamento telado - imagine você que pessoas moram no sexto, sétimo, décimo andar, têm gatos e não telam as janelas, por algum motivo que eu não consigo entender. Mesmo quem mora no primeiro andar, no térreo, tem que telar. Se for uma casa com quintal e o gato puder ter acesso ao quintal, ótimo. Então vai lá e tela o seu quintal, dá certíssimo, seu bichinho tem liberdade e segurança.
Só que não é assim e, por isso, quem tem animal pra doar, às vezes precisa esperar um tempão, o filhote fica adulto - e aí já é um outro problema - e não vai embora, porque o doador responsável não acredita na segurança dos animais. Aqui em Blumenau, quando pergunto se o gato vai ter acesso às ruas, tem gente que me olha como se eu tivesse dito que vou matar a mãe dele. É bem difícil. 

Meu gatinho Romeu, resgatado, adotado e castrado - tomando sol com segurança na sacada de casa

E, cuidar de um animal em lar temporário que está para doação é igual a cuidar do seu próprio: requer espaço, tempo, disponibilidade e dinheiro. Porque tem que vacinar, tem que castrar antes de doar, tem que vermifugar e tem que alimentar o bichinho. Isso, considerando que ele não fique doente enquanto estiver sob seus cuidados, porque, se ficar, tem que tratar. Espaço, tempo, disponibilidade e dinheiro.

Além da questão de segurança, os preconceitos: animal adulto, animal preto, animal mesclado, animal com "defeito", fêmea, macho, sem raça - todos eles com mínimas chances.

Por experiência própria digo: não tem lar bom pra todo mundo e o resultado?

Este, porém multiplicado pelo número de gatos nascidos e/ou colocados nas ruas. Foto tirada da internet 


2) muitas vezes os gatinhos não querem o sofá

Quem realmente se importa com o bem-estar dos animais gostaria de tirar todo mundo das ruas, certo? Pois é, eu também sou assim. 

Então vejo muita gente me chamando pra capturar filhotinhos de gatos que nascem nos terrenos baldios, nas ruas de Blumenau. E sempre dizem que querem capturar para doar, mas os animais são muito ariscos. Quando ouço/leio isso começo minha ladainha, que é a seguinte:
Gato arisco não é igual ao gato de sofá. O gatinho que corre DE VOCÊ quando te vê, provavelmente não vai se adaptar a uma vida de sofá, sombra e água fresca, se a vida em questão incluir contato constante com humanos.

Bem diferente do gatinho que corre PARA VOCÊ quando sua pessoa aparece. Esse sim, quer seu carinho e seu colo e, se cruzou o seu caminho, leve pra casa. Dê um banho, comida, uma consulta ao veterinário, vermífugo, castração e lar, se não definitivo, pelo menos temporário e doe, com responsabilidade.

Porém o D - do C.E.D. - trata mais dos primeiros, dos que correm de você e se escondem quando te veem. Eles são ariscos porque, muitas vezes, não têm muito contato com humanos, têm medo do desconhecido. Às vezes já desde muito pequenininhos são medrosos e isso depende muito do temperamento da mãe. Se é uma gatinha de rua, assustadinha e medrosa, eles serão também. E, acredite em mim, esses gatinhos não te amam, eles querem mais é te ver pelas costas. Aceitariam o alimento e a água sim, obrigada. Mas não querem seus afagos, seu sofá, sua voz, e muito menos sua companhia.

Por isso o C.E.D. devolve - porque não é justo você aprisionar um ser que te abomina, numa vida que não é a dele. Pois, se esses gatos - principalmente se já são adultos - são forçados ao convívio com o humano, podem viver uma vida de constante stress, o que não é saudável pra ninguém, nem para gatos.

Nesses casos, a solução é simples: castre e devolva. Isso todo mundo pode fazer.


Uma vez eu falei pra minha veterinária - uma pessoa muito consciente do problema de super população de animais de rua - que tinha um monte de gatos onde eu trabalhava, mas que eram ariscos e eu não poderia doar. E ela, linda, me disse, "vamos castrar e devolver lá". Isso, minha gente, muito, mas muito tempo antes de eu ouvir dizer que existia C.E.D. Até que um dia apareceu uma das gatinhas, a Mami Tricolor - meu gato nr. 3- com filhotinhos - um deles era a Léa - eu me apavorei com o que aquilo poderia se tornar se todas as fêmeas começassem a ter filhotinhos e tudo começou.

Nunca tive dificuldades emocionais em devolver os gatos ao local deles. Nunca. Nunca. Nunca. Pelo contrário, sempre senti alívio em saber que daqueles matos não sairiam mais gatinhos. Mesmo quando são os filhotinhos, daqueles que desaparecem quando nos olham, não tenho problemas. Pego, castro e devolvo na boa. Até forcei a alimentadora de uma das minhas colônias a ficar com os três que nasceram embaixo da casa dela, fiz terror e ela os deixou - arisquíssimos que são - por ali mesmo. Aliás, a gatinha Filha Dela, mãe deles, da minha turma de gatos-bagres com phd, é a última de um total de 13- que falta castrar lá.

Tica ( na frente ) e Teca (ao fundo) - bebês que nasceram debaixo da casa, castradas, devolvidas em fevereiro de 2013


Tem exceções? Sim, claro, como todas as boas regras da vida. 

Nós mesmos já capturamos alguns que achamos doáveis. Também queremos dar uma chance a quem pode ter uma. Tem a famosa Léa - uma tentativa mais ou menos fracassada de doação, tem o Frajola que, no fim, parece ter se adaptado ao novo lar - esses dois, filhotes -  e tem a Fofolete, adulta, a gata mais doce que eu vi na vida, com um bigodão branco maravilhoso, capturada por engano, na verdade, pois não era de rua, era de um dono babaca que, no fim das contas não a quis de volta.
Frajola - doado e, até o momento, no novo lar


Fofolete maravilhosa com seu focinho preto e bigode branco - capturada, castrada, rejeitada e, por fim adotada com muito amor




Tudo ia bem no coração da Operação, até que...

... na nossa última captura apareceram três (talvez quatro, ainda não sei) filhotes lindos, mais ou menos ariscos, novinhos, em situação de risco de envenenamento e passando fome. E aí começou o meu calvário interior, no qual me encontro ainda. Balancei feio e ainda estou balançando. Tanto que não os devolvi, estão na clínica, se recuperando fisicamente do estado de inanição e tentando ser amansados um pouquinho. Na verdade, não sei se vou doar, só se perceber total segurança por parte dos adotantes, senão, vão engordar, voltar para o local de origem e pessoas fofas e queridas vão me ajudar a comprar ração para eles, porque o senhor que os alimenta quase não tem comida nem para ele próprio.

Devolver os animais, tão novinhos, a um local onde vão passar fome, com muita probabilidade de serem envenenados assim que conseguirem pular o muro vai contra todos os meus princípios vitais e morais. E esses princípios são mais fortes que meus princípios de prática de C.E.D. - que eu realmente amo. Mas o conflito pelo medo de não conseguir um lar adequado para eles e acabar prejudicando as "crianças" me tira o sono e me mata de gastrite. Ainda não está decidido. Talvez eu esteja escrevendo este tema hoje para poder ver a situação de outro ângulo tomar uma decisão acertada. Visto de fora, pode ser que a luz brilhe no fim do túnel da minha gatoeira.

Opções ideais seriam:

1) poder devolver a um outro lugar onde não precisassem conviver com humanos se não quisessem, mas pudessem comer todo dia - como os gatos das minhas outras colônias. Infelizmente não dá, porque se eu os colocasse na região de uma das colônias que tem bastante mato, colocaria uma carga muito pesada nas costas da senhora que tira da própria mesa pra alimentar trinta gatos de Blumenau, sem muita ajuda. Seria muito injusto com ela, então não dá.

2) encontrar mais uma Carolinne ou mais uma Dani.
A Carolinne se comoveu com três gatinhos que moravam num galpão ( Neguinha, Romeu e Dalí ) e eram alimentados pela Dona Léo (Eu louvo a Deus pelas pessoas que alimentam animais de rua). Pediu ajuda, fomos lá e eu tentei demovê-la da ideia de ficar com eles, por todos os motivos que já citei acima e nos quais acredito piamente. Ela bateu o pé, pelo medo de devolver ao galpão na rua movimentada onde a mamãe gata morreu atropelada. Pagou as castrações, levou pra casa e tentou amansar, ficou com dó porque eles sofreram, claro e encontrou uma solução, porque ela tem um espaço em casa com mata natural, pode dar comida pra eles vê-los todos os dias, eles vão pro mato, ficam felizes, seguros e voltam à noite pra jantar. 

Neguinha, Dalí e Romeu - ainda embaixo da cômoda da Carolinne - antes de terem acesso ao mato

A Dani foi a pessoa pra quem doei a Léa. Uma pessoa querida que ama gatos, ficou duas semanas com a gatinha (que não comeu nem bebeu por três dias e eu não dormi por três noites), mas teve que se despedir, porque D. Lelé foi pro mato que também tem no fundo da casa (o que me fez escolher a casa dela para doação), depois para o telhado do vizinho. Está por ali, feliz, mas meu coração sangra em saber que está de volta às ruas a gatinha que tanto amo, que ficou no meu quarto de visita por sete meses, me amou também, mas tive que doar devido ao medo de devolver ao local de origem - onde mora a mãe - porque o irmão morreu atropelado lá e eu não ia aguentar vê-la transformada em um tapetinho. De vez em quando temos notícias dela, só espero que viva bastante tempo. E eu sempre choro quando penso nela, como agora.

Minha Lelé, meu amor - sempre escondidinha - me olhando com seus olhos amarelos

No geral, eu prefiro o D de devolução quando o assunto é gato arisco. Sem sombra de dúvida, pra não submeter o animal à convivência obrigatória com humanos indesejáveis. Gosto de saber que serão felizes ali se puderem ter o mínimo necessário para sua sobrevivência nas ruas.

O que não parece ser o caso dos meus três (ou quatro?)

Clarinha


Maizena e León

E aí: Maizena, Clarinha e León, o que vai ser: Devolver ou Doar?

Abraços,

Maria Cecília

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