terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Estrada sem fim...

Entra ano, sai ano e a Operação Gato de Rua continua por aqui. Bom seria se pudéssemos fazer uma postagem dizendo "tchau gente, não temos mais o que fazer no mundo, acabou a missão". Mas, não é assim e, se continuar do jeito que está, que é e que sempre foi, não teremos descanso tão cedo.

Na busca por um tema para a postagem deste mês, tive a sugestão de falar sobre a eternidade das ninhadas de gatinhos abandonados. Se pararmos pra pensar que em 2012 - 2013, já escrevemos sobre isso, que estamos em 2017 e ainda vamos escrever sobre isso,  dá pra considerar seriamente se enfocar num pé de cebolinha. 

Protetor de animal dedicado a gatos começa a se arrepiar ali pelo mês de outubro, quando começam a pipocar gatinhos de todos os buracos existentes na terra. São milhares, em todos os grupos de adoção, grupos de resgates, páginas de ONGs, páginas de protetores independentes. Enfim, em todos os lugares. Porque, apesar dos esforços (??) dos chamados protetores, eles ainda continuam nascendo. E sendo abandonados. E sendo resgatados. E sendo doados. E nascendo. E sendo resgatados. E sendo doados. E sendo abandonados. Ad aeternum. 

Mas por que, afinal, o ciclo não se rompe? Gostaria que você abrisse seu coração, sua mente e refletisse interiormente, qual o seu papel no quadro geral. 

1) Vamos falar sobre castração / alimentação de colônias

Depois de tanto tempo lidando com captura de gato de rua, ouvindo suas histórias, vendo seus desfechos, muitas vezes muito trágicos, ainda me pergunto - como fazer com que as pessoas entendam que apenas alimentar os gatos de rua não é o suficiente? tem que castrar, pra que seu problema com dois gatos não se transforme num problema com quarenta gatos. Sim, castração não é barato mas, já há algum tempo, na cidade de Blumenau, é possível castrar animais a preço social, com os cupons vendidos por algumas ONGs e projetos da cidade. Inclusive nós disponibilizamos castração social a R$ 150,00 com anestesia inalatória - precinho de banana, com segurança, riscos menores e garantia de uma vida melhor para os gatinhos, mesmo que eles não sejam seus. 
Não tem dinheiro? Faz vaquinha, chama as pessoas, põe no face, vende brigadeiro, vende livros, faz um trabalho pra alguém. Faça sua parte.

Uma vez ouvi de uma veterinária que, para começarmos a ver resultado no número de animais abandonados, é preciso castrar 70% da população dos animais, num período de 20 anos. 70% em vinte anos, não é pouca coisa, então, não dá pra deixar pra depois..

foto da internet


2) Vamos falar sobre castração  de animais próprios.

Esse assunto é o que mais me irrita, Não me conformo com pessoas que deixam suas gatas criarem deliberadamente. Quer me matar de azia é postar num desses grupos de "Gateiras do Brasil" (saí pra não ter um AVC) que "sou vovó (!!!!!!) - minha filha (gata) teve bebês (de novo!!!) - e um monte de gente retardada dando os parabéns, e que Deus abençoe, que coisa linda e o escambau. É gente demais sem noção no mundo pra uma causa só. A castração só traz benefícios: evita câncer de mama de útero e de próstata, evita doenças transmitidas durante a cópula, melhora o comportamento, deixa o gatinho mais sossegado, e, obviamente, acaba com aquela chatice do cio, porque gata no cio é o que há de coisa mais chata do mundo, gente! Mas tem ainda muita gente que prefere submeter a gatinha a um parto e depois à separação de seus filhinhos, risco de ter alguma complicação, por puro comodismo ou porque acha bonitinho.

Nossa pastelada de 2015 teve o objetivo de castrar gatos com tutores e, dos mais de noventa gatinhos beneficiandos, a grande maioria tinha lar, tinha gente responsável por eles. Foram castrados e ninguém morreu. E - o melhor de tudo - daqueles noventa, nenhum mais nasceu.

Sei que uma castração tem um preço alto mas, com os mesmos cupons que eu citei ali em cima, dá pra resolver o problem sem gastar muito. Um pouco de boa vontade e prática do TBC melhora muito o bem-estar geral.

Tá, mas você prefere pagar os R$ 150,00 no salão de beleza, num vestido, numa viagem, num jantar, sei lá - não dá pra fazer isso e ficar castrando gato. E eu te pergunto: você se considera uma pessoa responsável? você faz sua parte? ou só gosta de fica reclamando que a prefeitura não faz nada. (Aliás, a prefeitura tem feito, pelos gatos do município).

foto da internet


3) Vamos falar sobre tutela responsável

Considera-se um tutor responsável, aquele que provê ao seu animal: alimento, abrigo, água, tratamentos de saúde quando necessário, companhia, amor, carinho afeto, segurança e - um super bônus - castração. Ninguém é obrigado a castrar seu animal, mas ajuda muito a vida dele (e a nossa), se resolver fazê-lo. Tutor responsável e consciente sabe dos benefícios e do alívio e tranquilidade de se ter um animal castrado em casa.

Tutor de gatos, quando é responsável, mantém seu gato preso dentro de casa: tela as janelas e o quintal, sobe o muro, fecha o gato lá dentro, não deixa dar aquelas voltinhas perigosíssimas, que põem em risco a vida do seu gato, dos gatos alheios e, quando o bichano não é castrado, ainda faz um monte de filhotes que serão abandonados dentro de um saco plástico, ou serão distribuídos igual a pirulito no fim da missa do Padre João Bachmann. Quer gatinho? Vem buscar, tenho oito. Isso quando não leva pra agropecuária e deixa lá, pra serem entregues ao primeiro que quiser levar. Deixar na agropecuária não é resolver o problema, é passar pra frente, livrar sua cara, fingir que a responsabilidade não é sua. 

tela no quintal - foto da internet

tela no terraço - foto da internet







tela na janela do banheiro  - sim!! - foto da internet










Tela de galinheiro, baratinha - protege meu Nicolau






Só pra constar que caso seu gato seja macho, ele é capaz de cobrir 30 fêmeas em uma noite - TRINTA!. Então, se seu garanhão felino encontrar trinta gatinhas pelas andanças, ele vai namorar as trinta - e depois vai embora, porque ele não quer nem saber. Não é à  toa que ele volta todo esgualepado do passeio noturno. E você, tutor de gato macho, nem vai ficar sabendo, provavelmente, que foi o responsável pelo nascimento de 180 filhotes dali a um tempo.Não se convenceu? Multiplica 180 por 365. São seus netinhos em um ano de passeios do seu gato macho não castrado que tem acesso às ruas.  Parabéns, vovô.


Ilustrando:
eu chamo de pirâmide do horror - tirei a foto da internet
 (Vai me dizer que não tem nada a ver com o abandono de animais? Que é um problema do governo?)


4)  Vamos falar sobre a doação responsável

Muito se fala sobre a adoção responsável, mas eu gosto de falar sobre a doação responsável. Porque se o animal está na sua mão e você é quem vai procurar um lar pra ele, então cabe a você fazer isso de uma maneira que não contribua para que esse gato morra dali a um mês ou dois (procure adotantes que estejam dispostos a telar a casa), que não fuja (tela) pra cruzar (castração), que não faça 180 filhotes em uma noite e que não precise ser jogado no rio, porque a pessoa não tinha condição de ter mais animais, seja por motivo de espaço, financeiro ou emocional. Porque tirar da rua e passar pra frente sem castrar, não ajuda - pelo contrário, atrapalha a vida de quem se dedica a acabar com a crueldade da vida nas ruas. Não tem dinheiro pra castrar? Não pegue. Ou pegue e vai fazer brigadeiro, crochê, bolachinha, faxina - mas não doe sem castrar. Não seja você o responsável pela continuidade do ciclo do abandono. Não tem aquele papo de - castração garantida na doação - castração só é garantida quando ela já foi feita. Porque não tem termo de adoção que obrigue o adotante a te deixar entrar na casa dele pra pegar o gato, caso ele mude de ideia. Lembre-se de que nossas leis são umas porcarias, no que diz respeito à proteção animal. E de que quem se ferra, SEMPRE é o animal, o único inocente nessa história toda.

Quer me dar azia de novo? Denomine-se protetor e anuncie doação de filhotes inteiros. Sim, eu sei que tem gente que resgata um monte, que não tem dinheiro pra castrar todos, mas, continuar doando sem castrar não é a maneira mais eficaz de acabar com isso. Se esse é o seu caso, pensa que é VOCÊ que está lá na outra ponta da corda, resgatando filhote de gatas alheias, porque em algum momento, um ser humano foi irresponsável. Quebre o ciclo, seja responsável, faça sua parte de verdade. Muitos veterinários de Blumenau fazem castração precoce em gatinhos com menos de três meses, fazem preço especial pra animal abandonado, parcelam pagamento, então corre atrás que vai dar certo. 

foto da internet


Estou falando aqui para pessoas que têm gatos, mas, o recado pode ir pra quem quer ajudar e não sabe como. Conhece alguém que tem gato inteiro? - ofereça ajuda pra pagar a castração. Conhece alguém que tem gato com acesso à rua? Indique sr. Beto da Bluredes - tem preço bem bom e é ótimo profissional. Não conhece ninguém nessa situação mas quer ajudar mesmo assim? Faça uma doação de um cupom, deixe uma castração paga numa clínica pra ONG usar pra quem precisa, divulgue, atue, ajude uma ONG ou protetor da sua confiança. Ajuda sempre é bem-vinda. 

Nós da Operação Gato de Rua não vamos pagar a castração do seu gato a responsabilidade é sua, mas podemos te ajudar indicando os profissionais com preços acessíveis, ou as ONGs que têm cupons sociais - podemos te ajudar a conseguir dinheiro publicando na nossa página, podemos te dar ideias. O que não vamos fazer é anunciar doação de filhotes ou adultos inteiros. E também não vamos te ajudar a resgatar se você não for providenciar a castração dos indivíduos, sejam eles adultos ou filhotinhos. Caiu na sua mão? Não passe pra frente, quebre o ciclo, seja responsável. Faça sua parte.

Então castre, castre, castre, castre. O seu, o do seu vizinho, da sua mãe, de quem você não conhece. Castre. E, pelamordedeus, NÃO ABANDONE!

Quem sabe assim, daqui a 20 anos  possamos fazer aquele post de "tchau gente, nossa missão no mundo acabou".

Um abraço, bom restinho de Carnaval.

Maria Cecília Quideroli
Operação Gato de Rua.




sexta-feira, 22 de abril de 2016

O gato que não era gato, o arame que não era arame - a verdadeira história por trás de uma captura

Quando a gente se decide a ajudar animal de rua, tem que ter muita consciência de que NÃO VAI ajudar a todos  e saber lidar com essa impotência parcial. Tivemos que lidar pessoalmente com isso uns dois anos atrás, quando uma pessoa nos chamou pra ajudar um gato que ela tinha resgatado.
A moça encontrou o gato estropiado na rua, porém, ainda vivo. Tinha sido atropelado e ela, no melhor clima de "vou fazer minha parte por um mundo melhor", resgatou o pobre bichinho e levou ao veterinário. O gatinho, que tinha a boca esmagada e algumas escoriações nas patas, foi levado a um hospital veterinário da cidade, tratado, curado e castrado. Ele seria adotado pelo coração generoso da moça, porque ela tinha medo de que, nas ruas, fosse atropelado de novo - e todos sabemos que os riscos de morte nas ruas são inúmeros.

Quando o efeito da anestesia passou, toda a equipe do hospital ligou pra moça implorando "tira essa fera daqui" - porque o cara avançava nas pessoas, pulava, rosnava e se portava como uma jaguatirica furiosa. Ela, não tendo o que fazer, haja vista que o animal ainda precisava de cuidados médicos, trancafiou-o numa caixa de transporte, levou pra casa e ali ele ficou, por dois dias. Sabendo que o animal sofria e, não suportando a situação, pediu ajuda. Foi quando a Operação Gato de Rua foi acionada por um desses grupos de adoção e ajuda a animais, que pipocam no Facebook.

Falando pelo telefone, disse pra ela soltar o gato num quarto fechado, imediatamente, porque ele morreria de lipidose hepática se ficasse preso, sem comer, estressado, na caixinha. Ela assim o fez. 
A partir daquele dia, nunca mais ela conseguiria entrar no quarto, porque o bicho era brabo pra caramba. Ligou para nossa voluntária, chorando, porque tinha que dar comida, mas morria de medo, então foi  instruiída a colocar comida no potinho e empurrar com o rodinho. Assim ela fez, por outros dois dias. 

Só que ela e o pai estavam de mudança, a casa já quase totalmente encaixotada, só faltava desmontar o quarto do gato. E, pelamordedeustiraessaferadaquiqueeuprecisoentrarnoquarto. Então fomos lá, armar a gatoeira e tentar pegar o bichano. 

Gente: o gato ficava escondido e, quando alguém acendia a luz (a voluntária, porque a moça não entrava lá de jeito nenhum), só se ouvia o "vruuuuuuuuuuuuuu" - no melhor estilo acelerador de motocicleta, vindo de algum lugar atrás do armário. Quem nunca ouviu esse barulho, não sabe o que é terror. 
A imaginação fértil nos deixava visualizar mentalmente, o gato com as orelhas pra trás, dente de fora, assoprando para o ataque fulminante. E aí ele saía correndo de detrás do armário e mudava de lugar, indo pra debaixo da cama. Foi quando pudemos ver que se tratava de um gato preto, peludo, bonito. E o medo deu lugar à ternura e compaixão, porque, no fim das contas, era só um gatinho assustado.

Depois de uma semana de gatoeira no quarto, porque o malandro comia tudo sem desarmar a armadilha, a moça nos deu um ultimato - "vou embora, vou fechar a casa e deixar o gato aqui". Assim com essa ameaça, resolvemos abrir a janela e deixar o pobre bicho sair pra liberdade. Era uma rua muito tranquila, cheia de árvores e matos, onde um gato de rua sobreviveria bem, com relativa segurança - o único problema era a boca costurada - não sabíamos se conseguiria comer passarinhos e bichinhos.

Fazemos  CED - (Captura, Esterilização e Devolução), de coração, sem dó, sem medo, porque sabemos que os animais que atendemos, na sua grande maioria, têm alimentadores e não morrerão de fome. O gatinho em questão, não só estava com a boca costurada, como também moraria num ambiente muito diferente do seu, sem a certeza de que poderia se alimentar. E, imaginar um ser vivo morrer de fome, corta o coração em milhões de pedaços.

E o tempo passou, nos conformamos com o mantra de que "fizemos o que estava ao nosso alcance", nos despedimos da moça, agradecemos a ela pelo que fez e fomos seguir a vida.

Até que, semanas atrás, uma pessoa nos chamou pra ajudar um gato que tinha um arame enfiado na boca. Na última terça-feira, às 6h30 da manhã conseguimos capturá-lo. Qual não foi nossa surpresa quando a veterinária disse que o arame, na verdade, era um fio cirúrgico, que o gato é, uma gata e que já estava castrada. E nos lembramos do gato brabo do quarto, porque era exatamente igual a ela e tinha sido solto ali nas redondezas.

"sou uma sobrevivente e vou ter uma nova chance - mas ainda nem sei disso"


Braba gente, muito muito braba


Às vezes ficamos sabendo que nossos gatinhos castrados foram envenenados, atropelados, perseguidos. E isso nos dói, porque cada um é amado como se fosse um dos nossos. Mas, às vezes, acontecem finais felizes que fazem valer toda a agonia, o cansaço, as horas que passamos nas capturas, a energia dispendida com falatório educativo, a frustração de voltar com gatoeira vazia pra casa. 

A gatinha agora se chama Nega, está na casa de uma de suas alimentadoras, tentando adaptação com a gata da casa.

"olha minha casa segura, gente"


"não gosto muito de foto, mas minha mãe me esmaga e faz"


Esta história só teve final feliz, porque algumas pessoas fizeram sua parte, em vez de esperar que "alguém" faça. A moça que o resgatou, levou ao veterinário e pagou R$ 1700,00 por um gato, com o qual não ficou; as alimentadoras da gata que a mantiveram viva e bem, o rapaz que se compadeceu e chamou pra capturar, os veterinários que a atenderam nas duas vezes e a moça que a levou pra casa, na tentativa de tirar das ruas um animal que já sofreu horrores. A felicidade completa da Nega está nas patas da gatinha da casa, que, ciumenta como só ela, está lá, ressabiada com a nova moradora.

Pedimos, novamente, orações, energias positivas, pensamentos de luz para que a Nega possa ficar em seu novo lar.

a irmã ciumenta


E que Deus abençoe cada um dos envolvidos, porque, como sempre dizemos, se cada um faz sua parte, muitos mais animais são beneficiados.

Grande abraço a todos, obrigada pelo carinho de sempre,

Maria Cecília Quideroli
Operação Gato de Rua





segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Pães, peixes e um feliz ano novo

Dia desses eu doei 15 cm do meu cabelo para o projeto @rapunzelsolidaria. Eles fazem perucas para pessoas com câncer, a partir de cabelos doados por outras pessoas. Tive que aguentar minha cabeleira de vassoura um tempão, louca pra cortar logo, mas como eles só aceitam doações com, no mínimo, 15 cm, esperei. Fui pra cabeleireira muito feliz, voltei descabelada e mais feliz ainda. Eu doo meu tempo para as capturas, mas fora isso, não posso doar nada: dinheiro, porque não tenho; sangue, medula e (acho que) órgãos, porque tive febre púrpura quando criança e doenças autoimunes nos riscam das listas de doadores. Fiquei arrasada, inclusive, o dia que soube que não doaria minha medula. Tinha o sonho secreto de poder, algum dia, salvar a vida de alguém. Então doei o cabelo e, do fundo do coração, espero que ele sirva para o propósito. Aí me perguntaram no trabalho se eu ia doar o cabelo e ouvi um: “mas é muito pouquinho” – porque era gente, uma merreca de cabelo, fininho, ralinho e, se comparado com as cabeleiras que estão na página do projeto, não daria pra nada. E eu fiquei um pouco triste com o comentário, não por minha doação ser pequena, mas pelo pensamento em si; fiquei triste pela pessoa. Imaginando que ela, talvez, por achar que é pouco, perca a chance de ajudar muito.
Aí, fui fazer uma apresentação da Operação Gato de Rua num evento de gatinhos de raça quando, ao falar de nossos números, percebi que não progredimos tanto quando eu gostaria no último ano. Queria ter chegado a, pelo menos, 500 gatos castrados em 2015. Mas, com muito suor e muito custo, conseguimos 329. Não é muito, se comparamos com os mais de mil de outros projetos semelhantes. Fiquei meio envergonhada de ter um número tão baixo se comparado aos dos outros. Porque eu estava comparando. Senti a vergonha que não senti quando doei o pouquinho de cabelo. E fiquei matutando o quão esquisitos somos nós, seres humanos, que, numa mesma semana, sentimos orgulho de uma merreca e vergonha de outra.
Então me lembrei da história daquele garoto que, sem vergonha nenhuma, ofereceu seus cinco pães e dois peixes à multidão faminta. Ofereceu com amor. E seus pães e peixes alimentaram a multidão e, deles, ainda sobraram doze cestos cheios. (Pra quem não conhece a parábola, está na Bíblia, em Mateus 14:13-21; Marcos 6:31-44; Lucas 9:10-17 e João 6:5-15). Porque quando dois não têm nada, dois não têm nada. Mas, se um tem algo e o divide, os dois têm algo. A doação, seja de seu tempo, seu coração, seu dinheiro, suas palavras, seu colo, seu sorriso, suas roupas e sapatos que não têm mais serventia, seu alimento, de si mesmo é o que nos faz viver o amor. Porque amar é fazer o outro feliz.  E ficar feliz em ver o outro feliz.
As famigeradas redes sociais estão aí, nos lembrando, a cada dia das tantas crueldades do ser humano pelo mundo, mas, ao mesmo tempo, nos mostrando coisas lindas como a história do cão Cafu ( viu? https://www.facebook.com/Padaria-Borasca-460964320597701/?fref=ts); do Jubinha (viu também? http://www.olharanimal.org/solidariedade/9959-conheca-jubinha-o-cachorro-que-dormiu-no-colo-do-papai-noel-e-encantou-a-internet). Pãezinhos e peixinhos modestos, espalhados pelo mundo. Coisas simples, atitudes mínimas, que fazem grande diferença.
Dezembro é mês de abandono de animais em nossa região. É tempo de receber dezenas de telefonemas e mensagens com : “encontrei um gatinho ( cachorrinho )  mas não posso ficar, pra onde levo? “. E quero dizer que acolher um animal da rua não é tão difícil quanto se pensa. A não ser que você seja uma daquelas pessoas que já têm 20 (30, 18, 10) animais, porque pessoas acham que a responsabilidade é sua, mas não delas. Porque quando sobra pra um só, aí, sim, a coisa complica.
 Dezembro é tempo de se parar pra pensar nas atitudes de pessoas que se dizem do bem e, na época do nascimento do próprio Amor, jogam seus animais nas ruas, como se fossem lixo. É época de torcer para chegar logo o dia 18, pra gente poder tirar férias e fingir que esse tipo de problema não existe. E é época de pensar que, mais uma vez, chegou o fim do ano e eu não sei se melhorei como deveria. Porque eu sempre penso que preciso melhorar, mas só paro pra refletir na época do Natal e da Páscoa.
Então, pra encerrar um ano, que aparentemente, está judiando de todo mundo, quero resgatar, em primeiro lugar, no meu coração e, através deste post, em muitos outros, o mesmo sentimento do garoto dos pães. Porque a doação, com amor, do meu pouco, juntamente com a doação, com amor, do seu pouco, vai fazer, com amor um muito e esse muito pode mudar, se não o mundo, pelo menos a vida de alguém.
Desejo que nossos corações possam se abrir ao amor desinteressado. Que cada pessoa possa se dedicar a uma causa, seja ela qual for e se doe ao outro. Tenha esse outro duas ou quatro pernas (ou nenhuma, mas que respire e sinta, que seja vivo). Que possamos fazer em 2016, um pouquinho mais do que fizemos em 2015. Que todo mundo que me perguntou para onde levar o gatinho abandonado que encontrou, sinta-se imediatamente aberto a acolher e fazer sua parte, porque o problema é de todos nós e a solução também está nas mãos de todos nós. Porque se cada pessoa oferecer um cantinho e acolhimento até uma adoção responsável com castração feita, um dia, o abandono vai acabar. E, já que sonhar ainda não custa nada, desejo  que, um dia, eu possa fazer um post de “muito obrigada por tudo, mas precisamos encerrar as atividades da Operação Gato de Rua, porque não existem mais gatos sem lar na cidade de Blumenau”. Se todo mundo se unir, a gente chega lá.
Um feliz Natal a todo mundo. E que venha 2016, porque 2015 já deu.
Beijos no coração.

Maria Cecília Quideroli

Operação Gato de Rua

terça-feira, 14 de abril de 2015

Sobre gatos e homens - o fim de uma colônia

Uma tarde triste começa com um telefonema horrível na hora do almoço, informando que a grande colônia de gatos em uma casa abandonada no centro da cidade foi, praticamente, exterminada. Sabe aquela ali, ao lado do Polo da Universidade, na rua da emissora de TV? Pois é, ela mesma.

Nosso choque inicial logo foi substituído por indignação, vontade de fazer justiça e, após visitar o local, por um desesperador banho de realidade perante a impotência diante da impunidade que todos sabemos, será a palavra chave de toda a situação. 

A Operação Gato de Rua estava castrando lá, com o apoio do CEPREAD. Já tínhamos capturado e castrado 9 animais e o plano era voltar no próximo fim de semana, para pegar mais alguns e, numa terceira vez, provavelmente, terminar o processo. E pronto, eles não se reproduziriam mais. 
A tendência de uma colônia na qual todos os gatos são castrados, é diminuir. Muitos, por não terem mais a necessidade de marcar território, acabam se mudando. Ou morrem, naturalmente, após algum tempo. Gato de rua, infelizmente, não tem muita perspectiva de vida longa. E, como se não bastasse todos os atropelamentos inevitáveis, as doenças não curadas, perseguições, espancamentos, sofrimento de fome e frio, ainda têm que enfrentar o pior de seus inimigos: o ser humano vizinho, minúsculo e subdesenvolvido, incapaz de se compadecer da situação de quem pode e tem menos.Que anda com duas pernas e, só por isso, se sente superior. Inteligência sem amor vira crueldade.

Parte dos quase 30 gatos - R.I.P.- queridos inocentes

OGR - orgulhosa da captura bem sucedida e Juliana do CEPREAD


Conversando com os alimentadores, soubemos que até uma semana atrás ainda estavam os trinta gatos ali, onde, agora, encontram-se apenas CINCO. Cansados de esperar que "alguém" desse um jeito, a vizinhança resolveu agir por conta própria, da pior e mais cruel maneira possível. E ver a varanda, antes cheia de orelhinhas pontudas e bigodes, agora vazia, nos fez chorar.

:( - só restam cinco e uma varanda cheia de espaço


Blumenau tem um índice de envenenamento de animais tão grande como nunca vi.  E olha que já morei em vários lugares do Brasil. Nada oficial, mas nunca me deparei com tanta crueldade em nenhum desses lugares. Muitas pessoas intolerantes, impacientes, soberbas e inertes, que esperam que alguém resolva seus problemas, na hora em que querem. E o pior? São pessoas que têm filhos, que se reproduzem e propagam seus genes podres; que lidam com seres humanos, vão à igreja toda semana. Fazer o quê? Porque Deus vê o nosso coração, não adianta ir lá posar de santo. Por que não castraram quando eram poucos? Por que não chamaram alguém quando eram dois ou três? Porque tinha que ser alguém, não eles. 

O que mais nos dói é saber que os criminosos não vão sofrer nada, ficarão ali, matando tantos gatos quantos lhes atravessarem o caminho, porque, afinal, alguém tem que fazer alguma coisa. Obviamente os corpinhos mortos foram removidos, para que provas fossem eliminadas. E é por isso que os filhos de queridas mães ficarão impunes. Não temos fotos, vídeos, nada que prove o massacre. Mesmo assim, vamos mostrar para essas pessoas que estamos de olho. Vamos nos reunir com faixas, buzinas, barulho, TV na frente da casa onde ficava a colônia, pra chamar a atenção e deixar essa gente, pelo menos, constrangida.

E, urgentemente, exigir que a lei que aumenta a punição para quem é cruel com animais, seja aprovada. Isso tem que acabar,não dá mais pra suportar. 

Esse post é um convite a você, que se solidariza com os pobre gatinhos assassinados e tantos outros que ainda serão vítimas desses abomináveis. Vem com a gente, fazer barulho e tentar por um pouco de vergonha na cara lavada desses idiotas que não perdem por esperar.

Por que a justiça brasileira é bem falha, mas, a de Deus, é infalível.

Vem, gente!!!

Um abraço de coração partido
Todo mundo da Operação Gato de Rua




quarta-feira, 8 de abril de 2015

Uma captura 100%

Nem sempre uma captura dá certo, o gato não aparece ou o gato aparece e não entra na gatoeira ou ainda o gato aparece, entra, mas consegue escapar! Isso é muito frustrante! Não só pelo tempo gasto, mas principalmente por saber que o gata ou a gato pode engravidar ou procriar. E evitar o nascimento de gatinhos sem dono é a nossa missão.  

Uma boa captura depende de duas coisas essenciais: interromper a alimentação no dia da captura e evitar ao máximo que o gato nos veja no momento da captura. Gatos são muito espertos, eles sabem que a nossa presença ali no local deles significa algo diferente. Pelo menos os gatos adultos, pois os filhotes são muito curiosos e até certo ponto inocentes e são os primeiros a investigar aquela comidinha diferente dentro da gatoeira. Mas geralmente não são eles que nós queremos, e sim suas mamães e papais. E ai a espera pode ser longa ou mesmo infrutífera. 

Uma captura perfeita é muito raro! Mas acontece. 

Blumenau, centro da cidade, dia 24 de março de 2015. Fomos preparadas para mais uma captura. A anterior havia sido em vão, a mamãe gata não cooperou e acabamos voltando de gatoeira vazia. 

O ânimo não estava dos melhores, mas mesmo assim foram passadas as mesmas recomendações para a protetora. 

Vimos um bom sinal assim que chegamos ao local: um bilhete pedindo para as alimentadoras não colocarem comida neste dia! E realmente não havia comida lá.  

Outro bom sinal: um gato cinza se aproximou de nós, se deixou acariciar e até brincou conosco. A protetora explicou que ele era manso, poderíamos pegar ele com a mão e colocar na caixinha de transporte. Fácil assim. Um gato muito querido e com certeza não era um gato feral. Esse gatinho teve um lar, era acostumado com pessoas. Porque estava na rua? Fugiu, foi abandonado?  Nunca saberemos.

O passo seguinte foi tentar a captura do gato mais arisco, um tigrado. Em pouco tempo ele apareceu, atraído pelo cheiro e barulho da ração.

A gatoeria foi colocada de um jeito que ficava perto dele e ao mesmo tempo permitia que ficássemos fora da visão dele. Mas havia a preocupação de que ele novamente não entrasse (essa era a segunda tentativa de captura). Um pouco de sachê na gatoeira e começou a espera... 

Algumas pessoas passaram pelo local, uma mulher com sua filha, perguntou receosa se levaríamos os gatos embora. Explicamos a ela o que estávamos fazendo, e ela comentou que havia dado um nome ao gato cinza (Socks, pois as patinhas são branquinhas nas extremidades, parecendo meias). 
Apenas pensei comigo mesma "mamãe, sua linda, você está dando um exemplo maravilhoso pra sua filhinha, não são apenas palavras que educam, mas principalmente nossas ações, nossos exemplos").  

Fui apresentada a outra alimentadora da colônia que passava por ali, e cheguei a conclusão que existe uma grande rede invisível de pessoas do bem que se preocupam, doam um pouco de seu tempo e dinheiro para a causa animal. O que seria deles sem essa grande rede?

Nesse meio tempo, o melhor aconteceu: o tigrado desceu até a calçada onde estava a gatoeira, atraído pelo cheiro da comida, andou ao seu redor, farejou,  entrou e zaaaaapp, gatoeira fechada!   

Dois gatos encaminhados para a veterinária!  

Mas o melhor da captura ainda não havia acontecido. O melhor da história ficou para o final.

A protetora da colônia procurou e encontrou uma nova mamãe para o gato cinza. O Socks recebeu até um novo nome! A adotante achou engraçado a pontinha da orelha esquerda cortada (prática comum para marcar o gato esterilizado) e batizou ele de Van Gogh. Talvez com o tempo ele seja chamado apenas de Vincent! 


E mais, o gato tigrado ficou com a sua protetora que já havia adotado um gato preto e machucado da mesma colônia, portanto, o tigrado e o preto já se conheciam e agora estão morando juntinhos numa casa amorosa e protegidos de todo o mal que estão sujeitos na rua! Que lindo gesto. 

Essa captura foi a mais recompensadora de todas, pelo final feliz dos dois meninos capturados e adotados! 

Quiçá todas pudessem ter um final feliz! 





terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Tudo junto e reunido no combate ao abandono

Bom, povo meu.

Ultimamente tenho me revelado uma pessoa reclamona, que adora criticar. Era promessa pra 2013, 2014 e é pra 2015, mudar isso. Então, pra dar o primeiro passo, resolvi agir.

Tem um site no Facebook, que se chama Bluanimais Adoção, no qual pessoas de Blumenau, a princípio, anunciam seus animais para doação. Até aí, nada demais. Só que, sendo eu uma pessoa que procura combater que animais com tutores procriem por quaisquer que sejam os motivos dos mesmos, me dói no coração ver os anúncios de: "minha gata deu cria, não posso ficar com os filhotes", "quando minhas gatas têm filhotes elas passam por isso" (este último quase que me fez pular no telhado, sério. Como assim, minhaS gataS dão cria, assim, com tanta tranquilidade? Cadê sua responsabilidade, criatura?) - Aí fui lá e reclamei. Como isso só me torna um ser antipático, resolvi agir pra tentar aliviar minha barra.Falei com as outras pessoas da ONG e, como todos eles sabem o baile que só os gatos são capazes de nos dar, concordaram em tentar comigo.

Sendo assim, criamos uma página, também no face, chamada "Preciso castrar meus gatos, mas não tenho dinheiro" - https://www.facebook.com/querocastrarmeugato?fref=ts

Nosso objetivo com a página é cadastrar o máximo de pessoas possível para ter uma ideia de quanta gente ainda vive no obscuro mundo de gatinhas queridas, com donos, parindo sem parar. Acreditamos que a responsabilidade é de todos nós, de cada um de nós individualmente, que a solução para os problemas está também em nossas mãos. Não adianta reclamar que a prefeitura não faz nada, porque eles fazem o que podem; que os veterinários são caros, porque eles precisam pagar contas e impostos; que não dá tempo, porque quem ama, arranja um tempinho pra cuidar do gatinho; não adianta dizer que "demos vacina a vida inteira e nunca aconteceu nada com nossa gatinha" - porque o risco que ela está correndo é grande demais e não vale a pena. E a vida dela depende de você.

Então, como estava dizendo, vamos registrar os dados, contar de quantas castrações precisamos, procurar veterinários parceiros, fazer um evento, chamar e esperar a participação dos interessados,porque, de bandeja, não vem nada. Quem não ajudar, não será ajudado. A solução está nas mãos de cada um, não de poucos.

Ainda é só um esboço, um desejo. Mas, como somos pessoas de fé, acreditamos que tem muita gente boa por aqui que só não colabora por falta de oportunidade; que só continua deixando gatinhos fofos nascerem, mesmo não tendo como ficar com eles, por pura falta de informação, ou de grana mesmo. 

Então, esta página é pra você: que tem gatos e gatas, inteiros, que continuam procriando indiscriminadamente; você que não tem dinheiro pra levar a um bom veterinário; você, que acha que a injeção de anticoncepcional não faz mal pra sua gatinha; você que, além de tudo isso, deixa seus animais passearem livremente, sem se importar com quem eles vão andar por aí.

Faça sua parte: curta nossa página, ajude-nos a divulgar, ajude-nos a ajudar quem precisa e quer.



Grande abraço,

Maria Cecília Quideroli
Operação Gato de Rua

sábado, 6 de dezembro de 2014

Encontros e Desencontros

Pois é, a ideia era fazer o II Encontro Nacional de CED aqui em Blumenau e trazer os Felinos Urbanos, o Stray Cats, o Bicho Caiçara, a ARPA, os Sotero Bichanos e mais um monte de gente linda. Mas, por quaisquer que sejam os motivos, somente pouquíssimas pessoas se inscreveram e, em função do alto valor do local reservado, preferimos cancelar. A boa notícia foi que o pessoal do Bicho Brother de SP, que já estava inscrito, aproveitou pra vir conhecer Blumenau e passar a Lua-de-Mel fazendo CED.  Eduardo e Mariana passaram o fim de semana aqui, trocamos ideias, tomamos café juntos, comemos cuca de nozes que parecia aquele doce maravilhoso chamado camafeu, enfim, foi muito bom. Além de alguns voluntários da Operação Gato de Rua e o Bicho Brother, ainda tivemos a presença da amiga Cris, sempre ali pra nos ajudar, quem, aliás,trouxe a deliciosa cuca.

Vanessa, da OGR (com minha Cachaça nas mãos), Eu, Mariana, Eduardo (ambos do Bicho Brother) e Cristina, amassando o Romeu, que se sentiu a estrela do dia.


E aqui, sem Vanessa, com Fábio. 

Durante os bate-papos, pudemos ver que temos muito em comum, mesmo em ambientes tão diferentes. Conhecer quem tem peito pra fazer CED e faz, sempre nos dá força pra continuar. Nós aqui, achando que nossas colônias são numerosas com vinte gatos, ficamos sabendo de uma em SP que deve ter uns 10.000 (sim, dez mil). Uma casa abandonada, com rolo de herança,  na qual ninguém pode entrar, onde os gatinhos vivem, se reproduzem (daquele jeito que gato se reproduz) e morrem, alimentados por uma velhinha  (o que seria dos gatos de rua, se não fossem as velhinhas de coração bom?).

Também ouvimos muitos relatos e ficamos com água na boca de conhecer o Rogério do CCZ de SP, um expert em laçar gatos com a rede em cima do telhado, ou onde quer que o bichano esteja. Ah, Nove e Quinze, quero muito que você conheça essa pessoa. Já ficamos aqui, pensando em como aprender com ele essas táticas milagrosas de pegar qualquer gatinho em qualquer lugar.

Eu, particularmente, tinha a curiosidade de conversar com o Bicho Brother, porque, além do CED, eles mantém abrigo, atualmente com 40 gatos. Como tenho lá minhas razões para ser contra e faço CED justamente porque não gosto de lidar com doação, queria saber como é. Claro que tem muito trabalho, muita despesa, muita dor de cabeça, muito gato que por esse ou outro motivo fica pra trás, nunca é adotado. Aquela velha história, típica de abrigos. Aí, num momento da conversa, ouvimos a frase: "nós vamos acabar com isso de abrigo, vamos ficar somente com o CED". Porque não é fácil nem pra quem cuida, nem pra quem fica lá (os gatinhos). Se uma boa adoção fosse garantida, seria um mundo ideal que, infelizmente, não existe. 

Bicho Brother já fez aproximadamente cem capturas, são, pelo que entendi, três pessoas. Vermifugam os gatinhos, antes de soltá-los (eu sempre quis fazer, só não sabia como). Têm convênios com alguns veterinários bem parceiros, também pedem para a pessoa que pede a captura pagar os custos de castração, etc. Porque senão não dá.

Das esquerda para a direita: a bunda do Nicolau em cima do sofá, eu, Cris, Eduardo e Mariana


E porque Lua de Mel, não tem sentido sem captura, fomos à colônia da nossa gatinha mais desejada, mais difícil, mais lisa: Nove e Quinze, perseguida por nós há dois anos, que, graças a Deus e à sua esperteza, já está com a cria número 4 - totalizando 15 filhotes (dois resgatados/doados; cinco mortos, outros quatro resgatados/doados e quatro ferinhas que estão lá) e, ao que parece, prenhe de novo. Porque,claro, as gatas mais ariscas são as mais férteis.

Nove e Quinze com cara de ninguém me pega

Depois de aproximadamente duas horas de baile, eis que um dos filhotes teve misericórdia de nós e resolveu que queria conhecer a tia Juliana. Capturado às 19h40 foi batizado de Sete e Quarenta. Eu ali, numa esperança de ele ser bonzinho e poder ser doado, vi meus sonhos desmoronarem ontem, quando a veterinária avisou que era pequenino, mas já é uma fera. Pena, perdeu a chance de sair das ruas. Detalhe: é um filhote de pouco mais de dois meses e foi castrado. Sim, é possível e necessário castrar filhotes, principalmente se estes serão devolvidos às suas colônias.

Eduardo e Sete e Quarenta

Sete e Quarenta, a minifera, já castrado e devidamente marcado

Ano que vem faremos,  em algum outro lugar do Brasil, nosso encontro nacional. Pelo menos é o que espero. Quando foi impossível realizá-lo em Goiânia, sugeri pessoalmente Blumenau, porque quero demais que as população daqui conheça essa prática tão eficaz para combater o abandono antes que ele aconteça e melhora a vida dos animais, em muitos sentidos. Infelizmente, as pessoas não se interessaram. Fiquei muito triste mesmo, porque seria lindo ouvir tanta gente que faz CED pelo Brasil afora. Azar  de quem não se interessa, não sabe o que está perdendo. 

Está mais do que na hora de protetores e amantes dos animais mudarem o pensamento, saindo da ideia de resgate / castração (pelamordedeus) e doação. CED é lindo. CED é a solução humanitária, para os gatos de ruas de países desenvolvidos que eutanasiam gatos errantes.

CED é vida.


Grande abraço,

Maria Cecília Quideroli
Operação Gato de Rua





domingo, 15 de junho de 2014

Tira esses gatos daqui!!!!!


No ano passado, fiz uma palestra no nosso Encontro Nacional de CED (que vai acontecer de novo em novembro 2014) sobre a devolução. Um dos meus tópicos, na palestra, foi o remanejamento de colônias. Até então, pra mim, era teoria, ou quase.  Até que, em maio de 2014, os vizinhos dos pobres gatos resolveram incorporar o mal, a intolerância, a ignorância, a crueldade e, claro, sobrou pros pobres animais. E, porque tragédia pouca é bobagem, aconteceu não em uma, mas em duas de nossas colônias.

Na primeira, a alimentadora é pessoalmente xingada por um vizinho imbecil que fica ameaçando matar os gatos "dela", se não forem tirados imediatamente dali. Só que os gatos não são dela, são da cidade de Blumenau, ela apenas dispõe de seu tempo e boa vontade, por amor a alimentar os bichinhos. Sob sol, sob chuva.  A vizinhança entende que, por ela se preocupar com o bem estar dos animais, é responsável por tirá-los dali. Claro que ela também se responsabiliza e perde noites de sono, saúde, tempo, lágrimas, tentando encontrar uma solução. Porque ninguém ajuda em nada, é só xingamento, só exigência. Não quero deixar que chamem a Prefeitura, porque não posso nem imaginar que eles sejam levados para o famigerado abrigo municipal - pelo único motivo de que não gostam muito de humanos, além dela. E não devem ser colocados para adoção, pois são ariscos. Então assumimos a bronca e estamos ajudando a remanejar sete gatinhos, de uma colônia de treze. Porque os outros oito não entram na casa do vizinho infeliz. Só mais um detalhe: o vizinho mora ali há anos e, apesar de já ter reclamado dos gatos anteriormente, nunca se comportou deste jeito. Então, por medo do que ele pode fazer, estamos nos virando.

tubos colocados pela alimentadora para os gatinhos brincarem 

A causadora do transtorno foi nossa gatinha Matriarca, que, aparecendo ali há alguns meses, teve seus bebês. Claro que não um ou dois, mas cinco. Juntamente com seus rebentos, ainda tem mais duas mocinhas que adoram fazer cocô no quintal do tal homem. De propósito, será?
nós, tentando conseguir um pouco de compreensão


A alimentadora tratou de pedir ajuda e, por fim, conseguiu a casa de uma senhora, que tem um quintal de mata, bem legal, além de dezesseis gatos próprios. Levamos os primeiros há algumas semanas, levamos mais dois duas semanas atrás e hoje ainda vamos tentar pegar os três últimos que faltam. Seria perfeito, se não fosse o fato de a mulher que agora cuida dos gatos, ficar ligando pra nossa alimentadora, que não tem condição nem de comprar comida pra ela, exigindo que esta sustente seus dezesseis gatos próprios. Claro que para os remanejados ela está mandando ração. Mas para os da mulher???? Por quê? Perguntei e a resposta foi: "eu não vou trabalhar de graça". O que os gatos comiam antes de levarmos os outros sete? Sinceramente, acho que sou ingênua em acreditar que pessoas façam alguma coisa sem esperar nada em troca. Porque não custaria NADA colocar a comida nos potes (comida que a alimentadora providencia, potinhos e cobertores que ela mesma levou). Não é fácil lidar com o ser humano, juro que não é. Nosso maior desafio nesta colônia é pegar os gatos, pois, sendo todos já castrados pela OGR, não chegam nem perto da gatoeira. Os que ela conseguia pegar na mão já levamos. Os remanescente são os mais ariscos.

gaiola onde ficaram por duas semanas, no novo lar

o quintal do novo lar, onde, hoje, já vivem soltos

gaiolas cheias de gatinhos sendo remanejados

a freguesia, com as gatoeiras em pé ao lado

a alimentadora, disfarçando para o gato entrar onde deveria



O outro caso é semelhante no que diz respeito à intolerância humana. Uma pessoa irresponsável se mudou do apartamento, abandonando sua gatinha prenhe. Claro que ninguém se prontificou a castrar a gata. Afinal de contas, não era problema deles, né? Algumas pessoas conseguiram pegar alguns gatinhos, mas a mamãe continuou - e continua - lá, inteira. 

Os gatos passaram a ser alimentados por pessoas que se compadecem de sua situação e, segundo a maioria dos moradores, foi por isso que os gatos ficaram. Sim, foi mesmo, provavelmente. Minha pergunta é apenas uma: por que não castraram a gata quando era UMA? Ah é, lembrei: não era problema deles.

Fomos chamados a participar de duas reuniões de condomínio, sendo que só uma vingou. E por que vingou? Porque as crianças estão adquirindo bicho geográfico, devido ao acúmulo de fezes de gatos no bosque. Ok, concordo. Não é legal ver um bebê de um ano e meio com o pezinho inchado e cheio de desenhos. Mas, me digam: por que deixar crianças andarem descalças num bosque? Não é um gramado. É um bosque, cheio de árvores, terra, raízes, barranco. Não é lugar pra criança brincar, muito menos pra andar descalça. Já dizia minha avó. Sim, eles pagam condomínio, têm direito de usufruir das dependências. Mas, então, por que não castraram a gata quando era UMA? 

Aqui, preciso ser justa: na primeira reunião, ficou combinado que os gatos poderiam ficar, mas que seria definido um local para a alimentação e que os moradores parariam de jogar comida pelas janelas - pois estavam atraindo ratos e gambás. Tudo bem, eu gostei da solução. Daria tempo de começarmos a castração dos animais, que, naquele momento eram aproximadamente sete. Só que, aparentemente, algumas das alimentadoras não seguiram a regras e continuaram a jogar comida pela janela.

Não conseguimos ir em janeiro, conforme combinado, devido ao grande número de colônias, então começamos em março. Mas, aí já veio a ordem de "parar de alimentar os animais para eles irem embora". 

Então fizeram uma segunda reunião, para a qual fomos convidados por uma das alimentadoras. O clima, na segunda reunião, era de muita hostilidade, todo mundo mostrando fotos ou pés ao vivo de seus filhos "doentes". Foi um festival de pérolas. Teve o relato de uma lá contando que adora gato, mas, quando ficou grávida, o médico mandou que se desfizesse do seu. Ah, os médico bem informados. O que seria de nós sem eles, não é mesmo?

Uma outra, super simpática, dizendo PARA MIM (como se EU fosse a causadora da "desgraça geográfica" deles), "se gosta tanto assim dos bichanos, que cada um pegue um gato e leve para casa". Porque ela gosta mesmo é de cachorro. Ou ainda um que tem três gatos de raça, mas deseja o fim dos pobres abandonados do bosque, só porque não custam o que os dele custaram. Ainda uma lá que levantou no meio da multidão dizendo que "se essa aí (EU, de novo) não tem tempo, "vamos pagar para alguém vir resolver nosso problema" (porque expliquei que precisaria de um tempo, devido a compromissos de trabalho - pra quem não sabe, sim, eu trabalho, tenho uma empresa, que precisa de mim). O síndico me defendeu, dizendo que nós fomos os únicos que se propuseram a ir até lá ajudar, pois tinha já falado com todo mundo. Mas, naquele momento, eu era vista, por muitos, como uma inimiga. Como se o problema, que já não era deles quando a gata era UMA, agora fosse meu, quando eles são, pelo menos, doze.

Aí levanta um senhorzinho, dono da razão e pai de uma veterinária - como se o fato de a filha dele ser veterinária lhe desse o direito de saber de tudo - dizendo que "nunca na história se ouviu dizer que um gato tenha morrido de fome" ( me arrepiei de cara, principalmente porque parece o discurso de uma outra figura, barbuda e asquerosa, que provoca repulsas no meu ser mais íntimo). Como assim, gato não morre de fome? Não entendi. Queria saber quantos gatos ele já salvou? Quantas vezes ele chegou a uma colônia onde um gatinho intruso passasse fome por não poder comer sem a permissão dos outros? Porque eu já passei por isso, pelo menos duas vezes. Tanto que a veterinária não me deixou devolver imediatamente, não antes de eles se recuperarem. 

O outro queria que eu utilizasse dardo tranquilizante. Gente, eu até tentei dopar gato ( na colônia da Nove e Quinze ), mas ali, naquele bosque, à noite, é simplesmente impossível. Porque o gato vai tomar o calmante, vai se esconder e nós não vamos achar, porque não cabemos nas mesmas tocas que eles cabem. Minha coluna não é flexível, nem tanto quanto a de um humano saudável, muito menos como a de um gato. 

Eu até acho que o mundo se equilibra. Ao mesmo tempo que tem gente tão insensível, tem outras que se comovem e se habilitam a ajudar. Gente que se dói por aqueles que não podem se defender. Gente que fala por quem não tem voz. Uma das moradoras, não suportando a injustiça para com os gatinhos, acabou se mudando de lá. A outra já me contou que deve seguir o mesmo caminho," porque não dá pra morar com tanta gente ignorante".

Meu argumento natural seria: por isso que moro em casa, não em prédio. Mas, desde que nos mudamos para a casa nova, esta teoria caiu por terra. Nossa vizinhança aqui é hostil a ponto de ameaçar dar veneno de rato para meus cães e botar fogo na minha casa. O ser humano é fofo, não é?

Mas, enfim, o resultado da reunião foi: os gatos não poderiam mais ser alimentados, para que fizessem o favor de ir procurar comida em outro lugar. E nós teríamos sessenta dias para retirar todos. Até ali, eu não poderia garantir que não morreriam de fome, então fui me informar. Porque se a filha do senhorzinho disse que não morre, então não morre, né? Só que eu não acredito em opinião de inimigo (papel que ele representava naquele momento). Entrei em contato com o pessoal de Oregon (FCCO), que faz CED há trinta anos e, segundo eles, os gatos morreriam de fome sim, caso não fossem mais alimentados. Aí perguntei para outra pessoa que faz CED, que disse que não,não morreriam. Liguei pra minha veterinária e ela disse: sim, morreriam. Pronto, dois a um. Informei ao síndico que, caso os gatos não fossem mais alimentados, eu os denunciaria por maus tratos, pois são dependentes dos cuidados humanos e, já que vamos retirá-los dali, não haveria motivo para ser cruel. 

Moral da história: cada um está fazendo sua parte: alimentadoras alimentam, o síndico recolhe as crianças quando vamos (porque o passatempo predileto deles é aterrorizar os pobre gatos), nós nos disponibilizamos a ir duas vezes por semana e o condomínio arca com as despesas. Filhotes até 4 meses serão sociabilizados para posterior doação, adultos estão sendo remanejados para um outro lugar, onde terão tudo de que precisam e as alimentadoras ajudarão a custear o alimento deles. Só que, se não conseguirmos retirar os gatos dali no prazo determinado, eles vão "dar um jeito" no assunto. E que jeito? perguntei eu na reunião: "sei lá, vamos soltar uns cachorros por ali". Porque, né? Muito mais fácil assim, certo?

Uma vez, conversando com dois amigos da causa, disse que não gosto de fazer doação, porque não gosto dos seres humanos. A resposta deles foi que eu não posso dizer isso, uma vez que tenho uma escola, funcionários, alunos e eles são pessoas. É mesmo, não posso dizer que não gosto de humanos, mesmo porque eu sou uma humana, meu marido, que eu amo, é humano, minha mãe, meus irmãos, meus parentes, amigos - tudo gente :)) 

Então eu não vou mais dizer que não gosto de seres humanos. Mas, posso e vou dizer que, em muitos casos, ainda prefiro os animais.

Um abraço,

Maria Cecília Quideroli
Operação Gato de Rua

* Só para constar: quando começamos o remanejamento no condomínio, tínhamos conhecimentos de 3 gatas adultas, 4 gatos de sexo desconhecido, 5 filhotes de uma das gatas. Hoje, após capturarmos 4 (outras) gatas, uma delas tinha tido bebês, então além dos 5 originais, temos mais três minigatinhos de dois meses. E, pelo menos dois gatinhos pretos de aproximadamente 5 meses, que não faziam parte dos primeiros contados. Já retiramos uma gata mansa que foi doada, uma bravinha, que foi devolvida, pois capturamos antes da ordem de retirar, uma outra fêmea, filhotona de uns sete meses, além de um dos cinco filhotes, um filhotão frajola arisco, uma cinza e branca que tinha tido bebês recentemente e um dos minigatos, seu bebês. Ainda nos faltam: a gata mãe dos cinco filhotes, o irmão da adotada, um gatão cinza, dois frajolas, quatro dos filhotes maiores, dois dos minigatos e os dois pretinhos. Esses são os que nós já vimos. Esperamos que pare por aí. Isso tudo, porque enquanto era UMA gata, não era problema deles.



quinta-feira, 1 de maio de 2014

Não se pode ganhar todas

Um dia você se decidiu a fazer CED em vez de resgate, pois sabe que não dá pra salvar todo mundo. Então, percebendo a importância da castração no combate ao abandono animal, resolve que este será seu trabalho. Aí começa. Captura. Esteriliza e Devolve, quase duzentos gatos da sua cidade. Tem firmeza no coração, suficiente pra devolver a um mato, gatinhos que, em outras circunstâncias, poderiam estar sendo amados e aquecido sob um edredom.

E faz isso, muito feliz, sem nenhum peso na consciência.

Às vezes, porém, aparecem gatinhos mansos, gatinhas mamães e sua caixa de minigatos, filhotes maravilhosos, que, não só merecem, como podem e devem receber um lar, pois são sociáveis o suficiente pra se esfregar numa mão que o queira acariciar. Aí você Captura, Esteriliza e Doa, com muito cuidado.

Mas, porque a vida no mato, assim como nas ruas, não é fácil, os perigos são iminentes, muito maiores do que aqueles a que estão sujeitos gatos com tutores e lares. Tem perigo de cobra, de lagarto, de cachorro solto, de envenenamento, de atropelamento, de violência. E você vê que seus gatinhos, mesmo agora com uma grande chance de ter uma vida melhor por estarem castrados, perdem essa chance, simplesmente por não terem um lar pra chamar de seu.

E você se depara com uma das "suas" filhotas, de quatro meses, recém castrada, atropelada, agonizando. Leva pra tentar ajudar, mas ela não sobrevive. Tá bom, não deu, pelo menos morreu sem dor, embrulhada num cobertor térmico. Assim como o filhote que não sobreviveu à anestesia, por ter má formação no coração e nos pulmões.

Filhota - atropelada uma semana após a castração

Alguns dos nossos capturados foram vítimas do abominável ser humano, como os nove envenenados na colônia original da Marli, por motivos até hoje desconhecidos. Ou a Mami, linda, mãe do Maxi, do Micky e da Liza que, porque passou da limite da calçada, foi exterminada com o famigerado chumbinho.

Mini - vítima de envenenamento em massa


Mami - assassinada com chumbinho


Tem também a gatinha linda do Morro, atropelada pelo dito dono da Cuore, que desceu a rua, com seu carro em velocidade acima do ideal, pegando-a em cheio, sem chance de se defender, de ser socorrida. 

Boneca - gatinha atropelada e morta pelo "dono"da Cuore


Ou a Ônix, do centro, também atropelada; o Frajola, lá do começo, minha primeira perda, atropelado. As gatinhas de uma colônia pequena num centro comercial, exterminadas por cretinos intolerantes.

Frajolico - a primeira perda


Mortes inevitáveis de certa forma, porque não vimos, não pudemos fazer muita coisa.

Só que tem aqueles que até teriam uma chance, não fossem as circunstâncias. Seja pelo temperamento, seja pela condição financeira, seja pela falta de lar.

Tivemos uma gatinha de telhado, muito fofa, mas muito arisca. Fizemos a captura e ela tinha prolapso retal. Se fosse a minha gata, a sua gata, mansa e com uma rotina de família, a chance de ficar boa seria muito alta. Só que ela não era mansa, não era minha, não era de ninguém. Morava no telhado com seus bebês mais velhos e os mais novos, naquela vida dura de gato de rua. E, na impossibilidade de ser tratada no pós cirurgia, por ser arisca, por não ter um lar, não ter possibilidade de se fazer curativo, não foi devolvida.

O outro, ainda filhote, filho da minha freguesa mais escorregadia, a Filha Dela, que mora embaixo de uma casa, ficou doente, também levamos ao veterinário, mas não dava mais pra ele. A alimentadora suspeita de veneno. A veterinária suspeita de problemas de saúde, respiratórios, graves e incuráveis para um gato que não pode ser tratado por seu próprio temperamento e condição de vida. E, mais uma vez, para que o sofrimento acabasse, não foi devolvido.

E teve a linda Cuore.

Gatinha que, oficialmente, tinha donos, tinha um teto, mesmo morando na garagem, sem acesso ao interior da casa, nem dos corações. 

Socorrida pela alimentadora (porque os tutores nem se importaram), por sua respiração ofegante e falta de apetite, foi levada ao veterinário, com suspeitas de infecção pulmonar, trauma, ou qualquer outro problema de solução relativamente fácil. Fim de feriado, radiografia e o triste diagnóstico de cardiopatia. Os donos? nem quiseram saber, preferiram a doação.

Uma gatinha linda, doce, amada, querida, carinhosa, mas que precisava fazer muito esforço pra conseguir oxigênio. Colocava seu narizinho pra fora da grade e puxava, puxava, tentando conseguir um pouquinho. Porque seu coração era grande demais. 

Solução? Até que teria: um lar definitivo, no qual os tutores tivessem condição financeira de levá-la ao cardiologista periodicamente, com gastos aproximados de R$ 300,00 por consulta. Pra sempre, mas o sempre seriam mais uns poucos meses. Quem adotaria um animal, sabendo que dali a pouco tempo teria que passar pela perda? 
Precisaria de tutores que não tivessem nem crianças, nem outros animais, muito menos gatos, porque ela não poderia passar por nenhum tipo de estresse, sob risco de morte instantânea. 

E você não tem a condição financeira. Seu projeto não tem a condição financeira. O LT que a acolheria tem outros 18 gatos e nenhuma chance de se garantir cem por cento de tranquilidade, sem estresse. Muito menos ainda, você tem um adotante especial.

E vem a parte mais difícil de se fazer CED. Quando você precisa se conscientizar de que não pode usar seus parcos recursos de castração para salvar um gato em detrimento de outros vinte.Manter um animal sadio em LT é muito caro, imagine um animal doente, com despesas contínuas e altas. Não dá. Não é nosso foco. Por mais que nos doa. 

Claro que, se os donos fossem responsáveis, ela teria sido devolvida. Só que eles não cuidaram direito dela antes, não se importaram que a tiramos de lá, não cuidariam depois e ela morreria asfixiada, lentamente, com muito sofrimento. 

A morte de um gatinho de rua, seja ela como for, é sempre uma dor pessoal, pois cada um é um filho menos favorecido. E, se por um lado, a impotência é revoltante, ela nos move a continuar com o trabalho de castração e devolução da maioria, mas, quando for o caso, insistindo na doação responsável, para pessoas comprometidas, com condição financeira e disposição interna em gastar dinheiro com tratamento veterinário quando necessário. Pessoas que permitam ao gato, ser criado dentro de casa, debaixo das cobertas. 

Não adianta doar pra qualquer um. Muitas vezes, ter uma casa, não significa ter um lar; ter "donos", não significa ter uma família. Cuore que o diga. 

RIP linda gatinha.



Maria Cecília Quideroli
Operação Gato de Rua